Depois de haver algum acerto de contas de Musk com quem lhe emprestou dinheiro para comprar o Twitter, os bilhões levantado no IPO histórico devem começar a ser empregados nos sonhos vendidos pela SpaceX ao longo dos últimos anos. Vai daqueles repetidos à exaustão, caso da colonização da Lua e do envio de humanos a Marte, aos mais recente, o milhão de data centers de IA ao espaço e a conexão de internet diretamente a smartphones. Este último, é bom que se diga, já está saindo do papel. Por onde quer que se olhe, o Brasil terá de ser considerado no horizonte da SpaceX. A primeira parada é o bolso. A empresa precisará de fluxo de caixa e, como empreendimentos espaciais são mais chamativos do que rentáveis, haverá pressão sobre as áreas que agem como motores da receita do conglomerado. Tudo aponta para a Starlink —segundo a Reuters, os US$ 16 bilhões faturados em 2025 representam algo entre 50% e 80% do faturamento total da SpaceX; disso, US$ 8 bilhões foram lucro. Nesse cenário, avançar sobre mercados já conquistados será crucial. E, levando em conta os números alardeados pela empresa, o Brasil figura como um dos principais territórios da Starlink: brasileiros são 10% dos 10 milhões usuários da Starlink —é bom dar um desconto aqui: ainda que a empresa fale em 1 milhão de clientes por aqui, a Anatel registra, com base nos dados reportados pela própria companhia, 660 mil. A segunda parada é a regulação. Grande consumidor de ferramentas de IA, o Brasil é um dos países onde reguladores estão no cangote da xAI devido à onda de nudes feitos com a inteligência artificial do Grok. ANPD (Agência Nacional de Proteção de Dados), MPF (Ministério Público Federal) e Ministério da Justiça possuem investigações abertas. Se avançarem, as punições vão de advertências a multas pesadas e até proibição para atuar no Brasil. A parada final é a capacidade de lançamento. Quando chamou de impossível a proposta da SpaceX para colocar 1 milhão de satélites em órbita, a Amazon fez a conta. Se em 2025 foram lançados 4.526 satélites em todo mundo, a SpaceX levaria 220 anos para atingir sua meta. Isso se mantivesse o ritmo e se colocasse toda a Terra para trabalhar a seu favor. Para piorar, a cada cinco anos precisaria mandar mais 200 mil novos satélites para substituir os equipamentos quebrados e manter a constelação satelital funcionando. Por si só, a manutenção já seria 44 vezes a capacidade global de lançamentos. Os cálculos da Amazon consideram, no entanto, só os locais de lançamento já em operação. Se Musk quiser fazer das promessas mais do que palavrório, precisará encontrar novos pontos de lançamento. E rápido —a tolerância com gestores de empresas de capital aberto é bem menor do que a que ele experimentou até agora. Ele conhece uma forte candidata. Por ser uma das localidades mais privilegiadas do mundo para missões espaciais, devido à sua posição relativa ao Equador e inclinação, o Centro de Lançamento de Alcântara, no Maranhão, surge como alternativa. Musk já esteve por lá. Foi em 2022, a convite do governo Jair Bolsonaro. A base está se viabilizando aos poucos, após o desastroso acidente que enterrou os sonhos brasileiros durante anos. No ano passado, voltou a realizar um grande lançamento. Não deu certo, mas a empresa envolvida, a sul-coreana InnoSpace, planeja nova missão para 2026. Também está prevista para este ano a decolagem de um foguete orbital a partir de um microlançador brasileiro. Patrocinado pela FINEP (Financiadora de Estudos e Projetos), vinculada ao MCTI (Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação), o projeto é concebido por cinco empresas (Cenic, Concert, Etsys, Delsis e Plasmahub) e conta com parceira da AEB (Agência Espacial Brasileira). O IPO da SpaceX só ocorre em junho nos EUA. Por aqui, os pauzinhos já foram movidos a favor da empresa espacial de Musk ao menos em duas oportunidades. Alguém ficaria surpreso se ocorresse uma terceira vez? |