06 abril, 2026

Alma Preta

 

Oi, gente!

Aymê Brito aqui. Nesta última semana, completamos 62 anos do golpe militar de 1964. E pra gente entender o impacto da ditadura na vida das pessoas negras, chamei a historiadora e coordenadora executiva de memória do Instituto Vladimir Herzog, Lorrane Rodrigues, para um papo rápido sobre o assunto. Bora lá!

Na sua opinião, qual foi o principal impacto do golpe militar na vida da população negra?

R: Para responder essa pergunta, vou me valer do trabalho da historiadora Gabrielle Abreu, intitulado Experiências Negras na Ditadura Militar. Ela divide a questão em três impactos principais: o crítico-ideológico, o no campo científico e o no plano socioeconômico.

No ponto de vista ideológico, a ditadura foi muito eficaz no reforço do mito da democracia racial, sustentando a ideia de que não houve racismo no país e transformando a própria denúncia de discriminação em algo suspeito, tratado como subversão. Isso teve efeitos muito significativos no período: dificultou a organização do movimento negro e empurrou sua atuação para um lugar semiclandestino, sob alta vigilância dos órgãos do Estado, sobretudo da SNI.

No campo científico, o trabalho da Gabi nos permite identificar uma dimensão ainda mais estrutural com a retirada dos quesitos de raça e cor do censo de 1970. Ao eliminar esses dados fundamentais, se deu uma dificuldade na produção de diagnósticos sobre desigualdades raciais e, consequentemente, na formulação de políticas públicas.

No plano socioeconômico, o impacto também foi extremamente profundo. Durante o milagre econômico, que depois caiu por terra, enquanto parte da sociedade experimentava crescimento e aumento de consumo, a população negra permaneceu excluída desses benefícios. Mesmo com a ligeira ampliação do acesso à educação, pessoas negras continuaram enfrentando barreiras no mercado de trabalho, confinadas a postos mais precarizados.

A combinação entre repressão, desigualdade material e negação simbólica manteve a população negra em condições desiguais e dificultou que essas desigualdades fossem nomeadas, debatidas e enfrentadas. Não é só uma ausência de história, mas de um processo ativo de silenciamento.

Tenho a impressão de que tanto o impacto do golpe sobre a comunidade negra quanto a resistência dessas pessoas ao regime são frequentemente invisibilizados na nossa história. Você concorda? Pode nos indicar militantes ou organizações negras que lutaram contra a ditadura?

R: Um ponto importante quando a gente fala da ditadura civil-militar é que ela não criou as desigualdades raciais, mas se apoiou profundamente em estruturas racistas já existentes para sustentar a narrativa de um país "harmônico", sem conflitos raciais. Então, o chamado mito da democracia racial foi parte importante da base ideológica do regime.

Ao afirmar que não havia racismo no Brasil, a ditadura deslegitimava diretamente o ativismo negro, que tinha como um dos pontos centrais da sua agenda justamente a denúncia da discriminação racial.

Além disso, a repressão e a vigilância dos órgãos do Estado atuaram como barreiras concretas à organização do movimento negro. Isso não significa que houve uma ausência de atuação, muito pelo contrário, a gente tem uma mobilização política intensa, crítica e combativa, mas que foi constantemente cerceada pelo autoritarismo.

Entidades negras formadas ao longo da década de 1970, como o Centro de Cultura e Arte Negra, o Grupo Palmares e o Instituto de Pesquisa das Culturas Negras tiveram um papel relevante na articulação cultural e política da população negra.

O que se consolidou ao longo do tempo, quando a gente fala sobre o imaginário social da ditadura militar, é uma imagem bastante limitada de quem teria resistido ao regime. É como se houvesse no nosso imaginário popular esse "militante padrão", frequentemente associado a um jovem branco, de classe média, vinculado à esquerda. Essa construção acaba invisibilizando a participação de pessoas negras tanto em organizações políticas quanto em coletivos do movimento negro, que também enfrentaram a ditadura de diversas formas, inclusive, em alguns casos, pela luta armada.

Outro ponto importante é que a produção intelectual negra foi monitorada e tratada como suspeita pelo regime. Pensadores como Abdias do Nascimento, Clóvis Moura e Beatriz do Nascimento tiveram seus escritos, falas e participações públicas acompanhados de perto pelos órgãos de repressão.

Entre as pessoas que atuaram na resistência, podemos citar Carlos Marighella, que ficou mais amplamente conhecido também pela visibilidade do filme. A Helenira Rezende, que integrou a Guerrilha do Araguaia (leia a reportagem que publicamos sobre ela). A Margarida Maria Alves, de ascendência negra e indígena, trabalhadora rural assassinada por sua atuação no Nordeste. E outros nomes como Benedito Gonçalves, Edmur Péricles Camargo, Dilermano Nascimento, Francisco Manuel Chaves, Manuel Aleixo da Silva.

Quando a gente reconhece essas trajetórias e sobretudo quando a gente as visibiliza no sentido mesmo de ver, de olhar para fotos, para rostos, isso é importante não só por uma questão de justiça histórica, mas porque amplia o nosso imaginário sobre o que foi a ditadura militar, tanto em relação às pessoas vitimadas quanto às que fizeram essa resistência.

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Indicações da equipe

📚Para ler: Lorrane indica o livro Dançando na Mira da Ditadura: Baile Soul e Violência Contra a População Negra nos Anos 70, de Lucas Pedretti. O livro analisa a experiência dos frequentadores e organizadores dos bailes de música soul no subúrbio carioca na década de 70 — festas que eram os principais espaços de lazer da juventude negra e trabalhadora da cidade e que rapidamente foram vistas pelo regime autoritário como uma ameaça à segurança nacional, desencadeando um processo de monitoramento, perseguição, censura e prisão.

🎧Para ouvir: Lorrane também indica o podcast Vidas Dissidentes em ditadura, que explora as memórias e experiências da comunidade LGBT durante o período militar no Brasil. São quatro episódios temáticos sobre histórias, territórios e como tudo isso se conecta, revelando tensões e resistências de quem enfrentou o mundo para ser o que é. O projeto é uma realização do Instituto Vladimir Herzog, em parceria com o Arquivo Lésbico Brasileiro e o Acervo Bajubá.