20 fevereiro, 2026

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ENTREVISTA AARON BENANAV

Futuro do trabalho será definido pelas relações sociais, não pela tecnologia

Em entrevista ao Le Monde Diplomatique Brasil, o historiador e sociólogo Aaron Benanav fala sobre seu último livro, Automação e o futuro do trabalho. Na obra lançada pela Boitempo em novembro, o professor da Universidade Cornell, Estados Unidos, desfaz mitos sobre o fim do emprego provocado pela tecnologia, identifica as causas estruturais da precarização no mundo do trabalho atual e aponta caminhos para uma sociedade pós-escassez

Por Luís Brasilino


Gostaria de começar por duas percepções amplamente compartilhadas e aparentemente contraditórias. A primeira é a sensação de que o avanço tecnológico está acabando com os empregos, e de forma cada vez mais rápida, anunciando um futuro sem trabalho. Isso está mesmo acontecendo?

Não. Tornou-se mais difícil para as pessoas encontrar emprego, e a tecnologia seria uma suspeita óbvia, mas as evidências não sustentam a afirmação de que estamos entrando num futuro sem trabalho, em que novas tecnologias destroem empregos a um ritmo acelerado. Se isso estivesse acontecendo, esperaríamos ver um crescimento muito maior da produtividade e muito mais movimentação entre ocupações. Em vez disso, o crescimento da produtividade diminuiu e, nos Estados Unidos, a rotatividade caiu ao nível mais baixo em sessenta anos. O problema central não é a destruição rápida, mas a fraca geração de empregos. Frequentemente isso é descrito como “crescimento sem emprego”, mas essa formulação engana: a economia ainda cria empregos quando cresce. O problema é que ela não cresce muito e está cada vez mais estagnada.

A segunda percepção é a de que, apesar dos avanços tecnológicos que parecem em tese facilitar nossa vida, trabalhamos cada vez mais. Por que isso acontece?

Porque a economia deixou de gerar dinamismo, apesar de todo o alarde tecnológico. O crescimento da produtividade arrefeceu, o que dificulta para as empresas aumentar a produção tornando o trabalho mais eficiente por meio de novas ferramentas. Vemos pedidos por “eficiência” em toda parte justamente porque ganhos reais de eficiência estão mais difíceis de alcançar. Como resultado, os empregadores recorrem à intensificação do trabalho – fazendo as pessoas trabalharem mais horas, num ritmo mais acelerado e em geral por menor remuneração. Essas pressões são mais fáceis de impor porque os trabalhadores perderam poder de barganha: proteções trabalhistas e sindicatos foram enfraquecidos, e a organização coletiva tornou-se menos comum. Quando a produtividade empaca e o poder se desloca para os empregadores, os avanços tecnológicos não produzem vidas mais fáceis, e sim trabalho mais intenso e controlado.

No livro, você observa que há mesmo, como coloquei na primeira pergunta, uma baixa demanda por empregos, mas que, ao contrário do que defendem os teóricos da automação, isso não ocorre por causa da tecnologia. Você poderia explicar o que então está por trás dessa baixa demanda?

A economia como um todo está crescendo mais devagar e, por isso, criando menos empregos do que antes. Parte dessa desaceleração reflete mudanças demográficas: o crescimento populacional diminuiu, limitando a expansão da força de trabalho e a demanda do consumidor. Mas a razão mais profunda reside numa longa mudança estrutural da economia mundial. Ao longo do século XX, a demanda deslocou-se primeiro para fora da agricultura e depois para fora da indústria, indo para os serviços. A agricultura e a manufatura tornaram-se altamente produtivas, mas a demanda global por sua produção não cresceu rápido o suficiente para absorver esse aumento de produtividade, levando a um excesso de capacidade persistente e a um corte de empregos de longo prazo.

O passado industrial não é motivo de nostalgia – muitos empregos industriais eram duros, perigosos e extenuantes. O ponto é que a produção industrial era singularmente adequada a grandes ganhos de produtividade pela mecanização, enquanto a maior parte dos setores de serviços é muito difícil de tornar mais eficiente. À medida que o emprego se desloca para os serviços, os avanços tecnológicos geram ganhos menores em produção e renda, o que retroalimenta uma demanda mais fraca, um crescimento mais lento e uma demanda por trabalho cronicamente baixa. Em muitos setores de serviços, o emprego só cresce porque os salários estão estagnados ou caindo, o que também ajuda a explicar por que o trabalho é tão elástico e inseguro em economias informais, nas quais as pessoas ganham rendimentos muito baixos apenas para sobreviver.

Você concluiu o livro em 2020, pouco antes do lançamento do ChatGPT, em novembro de 2022, e dessa onda mais recente da inteligência artificial generativa. Qual é a diferença entre a IA e a automação que havia quando você escreveu o livro e o que esse novo desenvolvimento muda em sua leitura sobre o futuro do trabalho?

A diferença principal é que sistemas de IA generativa como o ChatGPT miram mais diretamente o trabalho de serviços do que os robôs industriais sobre os quais eu escrevia antes, e é por isso que há tanto entusiasmo em torno deles. As empresas de tecnologia apostam que essas ferramentas podem finalmente elevar a produtividade nos serviços e, assim, tirar as economias avançadas da estagnação. O potencial de retorno seria enorme, por isso tanto capital está sendo despejado nessa tecnologia, mesmo que a probabilidade de sucesso seja relativamente baixa. Contudo, até agora, como em ondas anteriores de automação, os resultados ficaram aquém do prometido. Estudos com empresas que investiram fortemente em IA mostram que a imensa maioria não reporta ganhos mensuráveis de produtividade, e a imprensa econômica tem ficado cada vez mais preocupada com a falta de evidência no mundo real de que esses sistemas funcionam como anunciado. Ao mesmo tempo, a IA generativa é extremamente intensiva em energia, com empresas como a OpenAI registrando perdas enormes para manter esses serviços em funcionamento. Para que a tecnologia seja viável, tem de entregar ganhos de produtividade muito grandes que justifiquem seus custos elevadíssimos; sem isso, é difícil ver como ela pode escalar de forma sustentável. Essas mesmas restrições de custo e energia também tornam a tecnologia ambientalmente destrutiva. Eu discuto essas questões com mais detalhe no novo prefácio da edição brasileira do livro.

Considerando as décadas de sobrecapacidade e o subinvestimento na agricultura e na indústria, qual é sua expectativa em relação à política de America First do governo Trump? A elevação das tarifas comerciais pode reverter a baixa demanda por emprego nos Estados Unidos?

A agricultura e a indústria globais estão estruturalmente superofertadas e continuarão a eliminar trabalhadores ao longo do tempo. Dito isso, alguns países conseguiram limitar a perda de empregos superando outros na competição internacional, mantendo superávits comerciais persistentes e deslocando mais custos de ajuste para seus concorrentes. Alemanha e Coreia do Sul são exemplos claros: ambas mantêm cerca de 15% da força de trabalho na manufatura, comparado a aproximadamente 8% nos Estados Unidos. Por esse motivo, há um ponto legítimo em tentar reequilibrar o comércio internacional, inclusive porque desequilíbrios persistentes geram instabilidade financeira. Mas a abordagem de Trump não alcançará esse objetivo. Tarifas são instrumentos muito grosseiros: elevam os custos de insumo para empresas norte-americanas tanto quanto restringem concorrentes estrangeiros e não vêm acompanhadas do tipo de apoio focalizado que as indústrias domésticas precisariam para expandir o emprego. O que vemos é menos uma política industrial séria e mais uma forma teatral de ação estatal. Política industrial eficaz exige administração competente, coordenada e relativamente isolada das pressões políticas – como vemos na China, na Coreia do Sul e em Taiwan. Há pouca evidência de que isso esteja sendo proposto aqui.

Você descreve no livro que, em vez de desemprego, a baixa demanda por empregos tem produzido uma elevação do subemprego, um fenômeno que conhecemos bem aqui no Brasil, onde historicamente a informalidade alcança a maior parte da população ativa. Como esse fenômeno tem avançado no Norte Global, quais são as consequências para os países do Sul que já sofriam com o subemprego e qual é o impacto disso sobre as condições de vida dos trabalhadores?

Alguns estudiosos descreveram esse processo como a “brasileirização” da economia mundial. O que querem dizer não é apenas a difusão do subemprego, da informalidade e de formas mais novas, como o trabalho plataformizado [por aplicativos], mas também uma mudança mais ampla no balanço de poder e renda – do trabalho para o capital, dos salários para os lucros. À medida que o emprego estável declina, os trabalhadores têm menos proteções, acesso mais fraco ao seguro-desemprego e organização coletiva muito reduzida, especialmente em setores de serviços de baixa remuneração. O resultado é uma insegurança generalizada no emprego. No Norte Global, isso não é exatamente como no Brasil, porque em muitos países – especialmente na Europa Ocidental – uma parcela substancial de trabalhadores mais velhos ainda tem empregos estáveis com fortes proteções. No entanto, a maioria dos novos empregos já não é criada nessas condições, de modo que o subemprego se concentra entre faixas mais jovens, muitas das quais já avançam para a casa dos 40 anos. No Sul Global, onde a informalidade e o subemprego já eram difundidos, essa mudança global intensifica a competição por trabalho de baixa produtividade e reforça a pressão descendente sobre os salários, piorando ainda mais as condições de vida de trabalhadores que já lutavam para sobreviver.

© Reberson Alexandre

A aproximação das empresas Meta, X, Google, Apple, Amazon, TikTok e Open AI com a extrema direita ficou evidente pela presença de seus líderes na posse de Donald Trump, em janeiro de 2025. Como você coloca, a desigualdade entre capital e trabalho, bem como entre os assalariados, aumentou nas últimas décadas. A tendência é que isso se aprofunde? O que você acha das perspectivas de distopias da automação? Um mundo sem trabalho, altíssima desigualdade, segregação, fascismo…

Ainda estamos longe das distopias clássicas da automação – um mundo sem trabalho dirigido por uma tecnologia descontrolada. Apesar das promessas, sistemas como ChatGPT e a tão propagandeada ideia de “agentes” de IA têm poucas chances de entregar ganhos de produtividade numa escala que eliminaria o emprego em toda a economia. Alguns empregos certamente vão mudar ou encolher – partes da programação, pesquisa jurídica, redação técnica ou design gráfico. Contudo, esse tipo de automação de tarefas já ocorreu antes e continuará a ocorrer sem provocar perda maciça de empregos. A trajetória mais provável não é um colapso tecnológico repentino rumo a um mundo pós-trabalho, mas a continuidade do que já vimos: crescimento econômico lento, insegurança econômica persistente para grandes parcelas da população e contínua concentração de riqueza e poder no topo. A estagnação – não a abundância – ajuda a explicar o aprofundamento do alinhamento político entre grandes empresas de tecnologia e a extrema direita: numa economia de baixo crescimento, empresas dominantes ficam menos interessadas em inovação e expansão do que em proteger rendas, disciplinar o trabalho e se isolar da regulação democrática. A mesma estagnação alimenta a política baseada em ressentimento de forma mais ampla: a insegurança crescente combinada com oportunidades bloqueadas e desigualdade em expansão torna mais fácil redirecionar a frustração popular para bodes expiatórios culturais em vez de empregadores e proprietários. O que é novo desde a pandemia é que os Estados começaram a reconhecer a profundidade do problema e a responder com gastos deficitários em grande escala. Os Estados Unidos agora apresentam déficits em tempo de paz em níveis antes vistos apenas em guerras, e a Alemanha se moveu na direção de um keynesianismo militar. Essas medidas podem aliviar as pressões temporariamente, mas, sem uma transformação mais profunda da sociedade, falharão em reverter as tendências subjacentes.

Em sua pesquisa, você rejeita projetos amplamente defendidos pela esquerda em resposta à crise atual do mundo do trabalho, como as políticas keynesianas (redução da jornada, por exemplo) e a renda básica universal. Poderia explicar por quê?

Eu não rejeito essas propostas de pronto, mas elas são frequentemente promovidas como soluções para problemas que, por si sós, não conseguem resolver. Quando se fala em respostas “keynesianas” hoje, geralmente se quer dizer formas de gestão da demanda, como o gasto deficitário, e há versões claramente boas disso – quando os governos transferiram renda para lares da classe trabalhadora durante a pandemia, por exemplo, ou quando a administração Biden decidiu, por mais mal executada que tenha sido na prática, usar recursos estatais para apoiar uma transição verde. A redução da jornada, contudo, não é realmente keynesiana nesse sentido: ela persegue o pleno emprego sem aumentar a demanda por trabalho, mas reduzindo a oferta efetiva de trabalho ao sugerir que as pessoas trabalhem menos. Eu apoio fortemente a semana de trabalho de quatro dias, porque ela melhoraria o poder de barganha dos trabalhadores e a qualidade de vida, mas isso não resolve a fonte mais profunda da estagnação. O mesmo vale para a renda básica universal e ainda mais para os serviços públicos universais, que também apoio. O argumento do livro é que essas políticas não são balas de prata. O problema central que enfrentamos não é primariamente de distribuição, mas de produção: o motor de crescimento em que confiamos já não gera muito dinamismo. Redistribuição pode mitigar os danos, mas não pode resolver esse problema estrutural. Em vez de tentar sem fim reiniciar um motor que falha, precisamos substituí-lo por uma maneira diferente de organizar a produção e o investimento.

Os movimentos populares completam décadas na defensiva, tentando garantir direitos conquistados no pós-guerra. Qual é a importância de resgatar a ofensiva e discutir formas mais justas e igualitárias de organização social, e como organizar o trabalho para tal?

Não podemos vencer se só nos colocarmos na defensiva; também precisamos passar à ofensiva. Contudo, para isso, precisamos ser claros sobre o que significaria vencer. Creio que falta um centro ausente na política de esquerda hoje, enraizado no fato de que nunca assimilamos plenamente os limites dos modelos do século XX – socialismo de Estado, Estados de bem-estar social keynesianos ou estratégias de desenvolvimento do pós-guerra no Sul Global – e agora enfrentamos restrições ecológicas para as quais esses modelos não foram desenhados. Precisamos de uma narrativa crível sobre como, no século XXI, podemos construir um mundo radicalmente melhor. Escrever Automação e o futuro do trabalho foi um passo nessa direção: apesar de eu discordar do diagnóstico dos teóricos da automação, levei a sério a tentativa deles de imaginar um futuro diferente. Nos últimos cinco anos tenho trabalhado para desenvolver uma alternativa mais fundamentada. A ideia central é que podemos reorganizar a economia para que a produção seja orientada por múltiplos objetivos sociais – não só eficiência, mas também sustentabilidade, segurança econômica universal, inclusão social e trabalho de qualidade que ofereça significado e dignidade. Nessa visão, o trabalho não é eliminado, mas transformado: compartilhado de maneira mais justa, organizado democraticamente e orientado para garantir necessidades materiais ao mesmo tempo que amplia a liberdade das pessoas para perseguir desejos e modos de vida diversos. Podemos ter uma sociedade mais igual e humana, mas somente se construirmos uma economia que não gire mais em torno do lucro como princípio organizador.

Entrevista publicada na edição de fevereiro de 2026.  

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