Uma equipe realmente diversa é ouro nas mãos de qualquer organização. Mas ela não acontece por acaso. Nem adianta vir dizer que diversidade é um valor orgânico da sua empresa e que está lá naturalmente. Não está. É preciso intencionalidade de quem contrata, ou seja, ações planejadas com métodos e regras que visem um time com mais mulheres, pessoas negras, com deficiência e LGBTQIA+.
"Viemos de uma construção social histórica que faz com que haja uma inferiorização de determinados grupos. Nosso cérebro não percebe, mas responde automaticamente assim, inclusive na admissão de colaboradores. Por isso, uma empresa que preza pela diversidade precisa colocar intenção nesta mudança", diz Ana Clara Silva Pinto, Head de Pessoas e Cultura da Dengo Chocolates. Um em cada três líderes da companhia é uma pessoa negra - sendo que mais de 55% de todo o quadro é composto por mulheres, incluindo 6 das 9 posições executivas. "A gente lida com chocolate, algo muito especial. E este cuidado é muito feminino", diz a executiva.
Fundada em 2017, a Dengo Chocolates conta hoje com cerca de 500 colaboradores e concentra 100% de sua produção no sul da Bahia e na Amazônia. Todo o cacau utilizado vem de um sistema agroflorestal chamado Cabruca, cultivo que preserva a floresta em pé, pois utiliza apenas os frutos vindos da sombra das árvores. Com o propósito de levar renda digna para seus 200 produtores, a empresa afirma que, na safra de 2023, o valor pago a estas famílias atingiu 107% acima do preço médio de mercado. E, no ano passado, a Dengo lançou a primeira trufa do mundo que vem em uma embalagem sem plástico nenhum em sua composição.
Na entrevista a seguir, Ana Clara fala um pouco mais sobre a cultura diversa da Dengo, uma empresa que já nasceu nos braços do ESG - e que tem uma maneira muito especial de enxergar seu negócio, que vai desde a semente de cacau até a barra de chocolate que chega na casa do consumidor.
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Ecoa: A Dengo é uma marca que chama a atenção não apenas pelo seu impacto social, mas também pela diversidade de sua equipe. Como você vê este momento em que algumas empresas estão acabando com suas metas de diversidade e inclusão?
Ana Clara Silva Pinto: A gente está vivendo um momento bem triste. Existe uma sequência de movimentos que vão na direção contrária do que a gente acredita ser a construção de uma sociedade melhor, mais rica e menos desigual. Hoje estão falando até da questão da insegurança jurídica nos Estados Unidos. No fim, tudo vira um motivo para não investir no que é certo. E o que eu percebo? Esta é a hora de ver de fato quais são as companhias que estavam surfando da onda ESG, falando de diversidade hype, e quais são aquelas que, de fato, têm um propósito definido. A diversidade deve continuar existindo porque, além de todo o resto, ela é boa para o negócio.
Ecoa: A diversidade é algo natural na Dengo?
Ana Clara Silva Pinto: Na Dengo, o ESG como um todo é uma forma de estar no mundo. Não é uma pauta. Porém, quando a gente fala de diversidade, não existe nenhuma equipe corporativa diversa que tenha se formado espontaneamente. É preciso trabalho e intencionalidade para que ela tenha todos os grupos representados. Se a gente olhar os quatro principais marcadores (mulheres, pessoas negras, pessoas com deficiência e LGBTQIA+) existe uma construção histórica que faz com que nosso cérebro afaste essas pessoas automaticamente. Isso acontece também com o RH, são vieses do ser humano. São mais de três séculos de escravidão, por exemplo, que colocam as pessoas negras como se tivessem menos valor, como se fossem cidadãos de segunda categoria. Então o RH tem um papel fundamental de estabelecer práticas na organização que garantam que esses comportamentos automáticos não sejam reproduzidos.
Ecoa: Que tipo de práticas?
Ana Clara Silva Pinto: Um exemplo. Se eu, aleatoriamente, pedir para minha Inteligência Artificial trazer os 15 candidatos mais aderentes a determinada vaga, sem especificar mais nada, ela vai me trazer 15 homens brancos heterossexuais e sem deficiência. Eu preciso dizer: "Quero que você avalie pessoas negras". Isso é intencionalidade, é querer fazer diferente. Na Dengo, isso se faz com regras, de maneira sistemática.
Ecoa: Você é uma mulher negra que ocupa um cargo de liderança de pessoas e de cultura. Este tipo de representatividade também conta?
Ana Clara Silva Pinto: Sim, claro. O fato de você ter pessoas diversas em cadeiras executivas traz uma mensagem muito positiva para quem está olhando do lado de fora e que faz parte de um destes grupos que falamos. Esta pessoa pensa: "Aqui nesta empresa posso sonhar porque tenho espaço". Isso muda o jogo. A gente não vai sonhar com aquilo que não acha possível, certo? Você precisa ter ali a materialização dos seus sonhos. E uma mulher negra neste cargo ajuda nisso. Porém, de novo: se não houver intencionalidade nos métodos de contratação, não vai adiantar nada.
Ecoa: Qual o papel das mulheres na Dengo?
Ana Clara Silva Pinto: Na Dengo, um em cada três líderes é uma pessoa negra. E as mulheres ocupam mais da metade de todo o quadro de colaboradores. São mulheres porque, em primeiro lugar, a gente lida com chocolate, e o nosso chocolate é diferente, tem um sabor, um cuidado, uma apresentação, uma forma. Preciso trazer quem consegue entregar isso. E esta é uma característica que encontro mais nas mulheres. Porém há diferenciais para o negócio que não estão ligados a este marcador específico. Por exemplo: falamos diretamente com os produtores de cacau, pessoas humildes que muitas vezes nem têm conta bancária. As mulheres fazem melhor este contato e esta negociação. E não é porque são mulheres. É por sua trajetória, seu background, suas habilidades, pelo que elas trazem com elas. É importante deixar claro que estas habilidades são uma vantagem competitiva.