A primeira faixa do álbum Debí Tirar Más Fotos , do porto-riquenho Bad Bunny, começa com o grito: Nuevayol !, em referência à cidade de Nova York, que foi o principal destino de imigrantes porto-riquenhos no século XX. Depois do grito, ouve-se o sample de Un Verano en Nueva York , do grupo El Gran Combo de Puerto Rico – clássico da salsa dos anos 1970 – se transformar em dembow beat , base do atual reggaeton. Já no fim da música, a animação dá lugar ao medo. Shh, cuida'o, que nadie nos escuche , sussurra Bad Bunny, como se nos lembrasse das precárias condições de travessia imposta a imigrantes latinos nos Estados Unidos. Essa atualização de clássicos latino-americanos aliada à crítica anticolonial é a alma do álbum. Lançado em janeiro deste ano, a produção alcançou o topo das paradas musicais e transformou Bad Bunny (ou Benito Antonio Martinez Ocasio) em um dos artistas mais ouvidos do mundo – justamente num momento de profunda tensão entre a América Latina e os Estados Unidos de Donald Trump. Ao longo das dezessete faixas, Bad Bunny apresenta misturas de salsa, jíbaro, bomba, plena, reggaeton, synthpop e até um resquício de samba, subvertendo as aparentes regras da música comercial numa ode à cultura latina. Baile Inolvidable, por exemplo, é uma salsa vibrante de 6 minutos de duração. A extensão da canção vai na direção oposta ao padrão da indústria, hoje voltada principalmente para a viralização no TikTok e outras redes sociais. Como artista de sua época, Bad Bunny usa a música para abordar questões culturais e políticas relacionadas à dominação norte-americana. Na seção O que aconteceu com o Havaí , por exemplo, ele denuncia a invasão de terras e a exploração econômica desenfreada em sua terra natal: Querem tirar meu rio e também a praia/Querem meu bairro e que a vovó vá embora/Não, não solte a bandeira nem esqueça o bobo/Não quero que façam com você o que aconteceu com o Havaí. O Havaí foi invadido, literalmente, pelos Estados Unidos, que transformaram o local em uma espécie de playground, com resorts e atrações muitas vezes descoladas da tradição local. Bad Bunny faz uma música de protesto, mas também um alerta para que Porto Rico não tenha o mesmo destino (transformada numa base militar produtora de açúcar, a ilha hoje é oficialmente um território não incorporado dos Estados Unidos, um status ambíguo que confere alguns direitos aos cidadãos, mas lhes nega outros, como votar em eleições presidenciais americanas). Se o álbum começa com a história da migração porto-riquenha, Café con ron marca o desejo de permanecer e reivindicar o território de origem. Com participação da banda Los Pleneros de la Cresta, também de Porto Rico, Bad Bunny afirma: Ven subiendo, que no le vamo' a bajar/Sube tú pa' la montaña, hoy yo me quedo acá . É um recado para a indústria cultural americana e para todo o resto da América Latina: os Estados Unidos não são o centro do mundo. Ainda nesta faixa, o refrão é cantado em coro: Por la mañana, café, por la tarde, ron/Ya estamo' en la calle, sal de tu balcón. O ritmo em que essas frases são repetidas deixa em aberto o real sentido dessas palavras: trata-se de um grupo de trabalhadores marchando para a fábrica de açúcar ou jovens a caminho da farra? Longe de ser um defeito, essa ambiguidade entre luta e prazer enriquece a experiência de todo o álbum – e traduz uma característica central da cultura latina. O ponto alto, porém, é a música DtMF (Debí Tirar Más Fotos) , que dá nome ao álbum. Carregada de nostalgia, ela fala de um passado perdido, um rompimento cultural que o próprio artista buscou reverter através desse álbum. Essa ausência é representada na imagem da capa por duas cadeiras de plástico vazias com um cacho de bananas ao fundo. Aliás, a iconografia do álbum é toda composta por objetos, imagens e referências da cultura porto-riquenha, o que permite um mergulho total na história da ilha (os clipes e o curta-metragem que acompanham o projeto, por exemplo, têm como personagem coadjuvante um sapo-de-crista-de-porto-rico, espécie que corre risco de extinção). |
Eusexua é o ápice da experiência humana. Assim a compositora britânica FKA Twigs descreve o neologismo que dá título a seu disco mais recente, lançado no fim de janeiro. Ao misturar influências que vão de Björk a Madonna, Twigs – uma das artistas mais respeitadas da cena musical contemporânea – oferece um disco de pouco mais de 42 minutos, que, apesar da brevidade, toca em grandes temas, como prazer, vida e morte. A coisa toda vem embalada por estéticas sci-fi, perceptível na forma como Twigs tem se vestido em videoclipes e em eventos de divulgação do disco. Os dois discos de estúdio anteriores da artista são ambiciosos em suas temáticas, tratando de questões de consciência e da relação da compositora consigo e com os outros. Aqui, no entanto, as coisas vão muito além: com uma honestidade rara, Twigs tenta radiografar as origens dos seus traumas – em “Sticky”, um dos destaques do disco, ela se diz cansada de bagunçar a vida com momentos complicados, e compara os infortúnios a cobrinhas presas em seu corpo, contorcendo-se com a frustração. Pelo menos um desses traumas passados se tornou público: em fevereiro de 2021, Twigs relatou, numa longa matéria para a revista Elle, o relacionamento abusivo que viveu com o ator Shia LaBeouf. Eusexua é uma antropologia de si que deixa tudo às claras. E o faz com estrobos de luz, passos cuidadosos e dança. Ao tentar descrever a palavra que dá nome ao novo trabalho com mais precisão, Twigs definiu Eusexua como uma sensação, um sentimento deflagrado por ela em festas de música eletrônica, no verão de 2022. Em entrevista à rádio pública americana NPR, a cantora explicou que o neologismo traduz “a sensação de que a cultura está viva”. Na música que abre o disco, ela diz que Eusexua é algo parecido com amor, mas não é amor – é, na verdade, saber que não se está sozinho, que há sempre algo ou alguém. |
Nada de extraordinário acontece em O dia em que te conheci . O longa de André Novais Oliveira segue a cartilha dos filmes anteriores e da estética já consolidada do diretor. Fazer este que se apega ao banal, ao ordinário, mas sem tratá-lo como tal; e cuja abordagem crava, também, na visão do espectador. O filme mostra a vida de um homem comum, com uma rotina mediana, em um período de 24 horas. O protagonista, Zeca (Renato Novaes), é um bibliotecário que vive em Belo Horizonte e trabalha em uma escola na cidade vizinha de Betim. Para chegar no horário, leva cerca de uma hora e meia no trajeto de ônibus. Mas algo o prejudica a manter esse compromisso diário: por mais que queira, Zeca não consegue acordar cedo. É durante um dia ruim, em que sofre as consequências dos atrasos, que ele tem contato com Luisa (Grace Passô), outra funcionária da escola, que lhe oferece uma carona de volta a Belo Horizonte. A relação entre os dois se desenvolve de maneira sutil, seja através dos momentos de silêncio durante a viagem de carro, onde os dois parecem ter intimidade o suficiente para não se sentirem incomodados com isso, seja através de uma preocupação evidente sobre o problema do outro, ainda que o contato entre eles tenha se dado de maneira tão recente. Aos poucos, dando sequência ao problema que introduz Zeca ao espectador – o de acordar cedo –, se apresentam outras dificuldades rotineiras do protagonista, que parece já resignado. Nesse sentido, surpreende no texto de Oliveira a naturalidade com que os protagonistas falam de suas condições psicológicas, inclusive com diálogos por vezes cômicos sobre suas medicações e doenças, como a depressão – que o protagonista reconhece estar tratando. É curioso ver esse retrato, raro, de um homem negro, de classe baixa, que precisa acordar cedo todos os dias para ir ao trabalho e é atravessado por inúmeras condições sociais e raciais, mas que, ainda assim, consegue dar uma boa atenção para a parte psíquica, já que as condições externas por vezes se sobressaem a problemas individuais e psicológicos, especialmente entre a população negra. Entretanto, bem mais do que esse recorte, Oliveira oferece a experiência de um filme guiado por um texto sensível e bem escrito, com atores que representam bem os incômodos dos personagens e como o encontro dos dois os torna pequenos diante do extraordinário que se forma ali, em um dia qualquer. |
“Hoje, enquanto rememora os tempos de faculdade e espera na fila do cartório a emissão dos documentos para um filho estranhamente efêmero e repugnante, você é capaz de atribuir os eventos daquela noite ao efeito de drogas.” Assim começa o conto O que você faria?, escrito por Evandro Cruz Silva e publicado na edição de fevereiro da piauí. Nele, a narradora, uma mulher negra, recompõe o próprio passado e uma noite que passou há muitos anos numa casa com outros jovens. “Somando os moradores, você e sua amiga, são oito pessoas, seis mulheres e dois homens, os dois homens são negros, quatro das mulheres são brancas, as outras duas são você e Brenda.” A frase inicial da trama é uma espécie de gancho, mas nada nos prepara para a escrita sinuosa e o desfecho surpreendente de Cruz Silva, um autor que desafia tanto o estereótipo da forma clássica do conto como as expectativas em torno da literatura que toma para si a incumbência de versar sobre questões raciais. Com um tom seco e toques refinados de humor, a narradora reflete sobre a própria vida e suas origens, mas também sutilmente interpela quem lê. O que você faria? Uma pergunta direta, e difícil de responder. |