Espontaneamente, 13% dos 155 milhões de eleitores brasileiros responderam que preferem o PL como seu partido político na mais recente pesquisa Datafolha, em abril. Isso equivale a 20 milhões de pessoas. É recorde absoluto para um partido declaradamente de direita. Como? A popularidade digital do bolsonarismo encontrou um aliado complementar no pragmatismo sem escrúpulos ideológicos do PL de Valdemar Costa Neto (mesmo partido do vice de Lula entre 2003 e 2010). Unidos, os novos aliados foram empoderados por uma avalanche de recursos públicos oriunda dos fundos eleitoral e partidário. Sem contar as emendas parlamentares de execução obrigatória. Isso é uma novidade com impactos potenciais mais profundos do que se imagina sobre a divisão de poder político no Brasil. Antes do PL, só MDB, nos anos 1990, e PT, nas últimas três décadas, superaram 10% de preferência partidária - e nunca se declararam de direita, ao contrário. O MDB liderou a transição democrática contra a direita. Foi o partido de maior preferência popular até 1999, quando foi superado pelo PT, que tinha um discurso à sua esquerda. O PT ainda lidera as preferências, com 21%. O MDB, hoje, tem 1%. Desde a primeira eleição presidencial após a ditadura, em 1989, nenhum outro partido assumidamente de direita além do PL atingiu a marca de 10% de preferência espontânea dos eleitores. O partido da ditadura, a Arena, foi sucedido pelo PDS e por uma sua dissidência, o PFL. Nos anos 1990 e 2000, ambas as siglas mudaram de nome, foram perdendo popularidade, mas ainda eram os maiores partidos de direita, oscilando entre 4% e 9% da preferência dos eleitores. Seus herdeiros hoje são PP e União, respectivamente. As citações a eles, segundo o Datafolha, não chegam a 1% há anos. O PL dos Bolsonaro e de Valdemar Costa Neto atingiu 12% das preferências em dezembro de 2025 e repetiu os dois dígitos em março (10%) e abril (13%) de 2026. É a primeira vez que o PL tem três medições seguidas sem cair do patamar dos 10%. Durante a campanha de segundo turno de 2022, quando Jair Bolsonaro tentava a reeleição como presidente, o PL marcou 11%, 8% e 10% em outubro. Chegava, no máximo, a 17 milhões de simpatizantes. Mas após a derrota, as citações ao PL caíram para 6% e o partido só voltou a dois dígitos em 2025. Além da persistência e da projeção recorde em números absolutos, dois outros fatos elevam a atual preferência pelo PL a um novo patamar: diferentemente de 2022, ela acontece seis meses antes do primeiro turno da eleição e com o partido na oposição. Sua tendência é crescer durante a campanha. O recorde de popularidade do PL é corroborado por outro instituto de grande tradição. O Ipsos-Ipec é o antigo Ibope, pioneiro em pesquisas eleitorais no Brasil. Diferentemente do Datafolha, sua pergunta sobre preferência partidária é estimulada, ou seja, mostra nomes de partidos para o eleitor escolher ou rejeitar. Por isso, as taxas de preferência partidária no Ipsos-Ipec são maiores que as espontâneas do Datafolha. Mas a tendência é igual, ou até mais forte. Em agosto de 2022, no primeiro turno da tentativa de reeleição de Bolsonaro, o PL chegou a 7% no Ibope. Hoje, o PL tem 19%no Ipsos-Ipec, que usa a mesma metodologia e a mesma equipe. Isso equivale a 30 milhões de simpatizantes. Nessa escala, da pesquisa de preferência partidária estimulada do Ipsos-Ipec, o PL só perde para o PT, que chega a 27% de citações, ou cerca de 42 milhões de simpatizantes petistas. Os dois maiores partidos têm uma grande diferença de aproveitamento de sua popularidade. O PL tem uma bancada maior de congressistas do que o PT. Isso porque Valdemar Costa Neto, antes de filiar a família Bolsonaro, sempre privilegiou as eleições parlamentares à eleição presidencial, com sucesso. O motivo é contábil: ter o maior número de deputados federais dá ao PL a maior fatia dos fundos partidário e eleitoral, e o maior valor em emendas de execução obrigatória a seus deputados e senadores. Bilhões que não dependem de barganha com o presidente em exercício. O cientista político Joaquim Meira faz sua tese de doutorado na Universidade de Harvard sobre os novos partidos de direita na América Latina. Ele credita o crescimento da popularidade do PL à interação dominante do bolsonarismo nas redes sociais e à capilaridade do partido. "O PL tem um profissionalismo que o PSL (partido de Bolsonaro em 2018) não tinha", explica. O que isso significa? O PL quer lançar candidatos majoritários em praticamente todas as unidades da Federação em 2026. Em especial para o Senado, onde pretende aumentar sua bancada, que já é a maior da Casa. Se conseguir atingir maioria em aliança com partidos da direita fisiológica, terá capital para perseguir o impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal pela condenação de Jair Bolsonaro e de outros golpistas. "O PL se consolidou como a marca forte da direita", diz Meira. Ou seja, dá voto estar no PL. Começar seu número por 22, aumenta as chances de eleição dos candidatos. Isso atrai filiados e fortalece ainda mais o partido, em um potencial círculo virtuoso que será posto à prova em 4 de outubro. |