A nova onda de governos de direita na América do Sul não chega, em geral, ao patamar de radicalização que a extrema-direita brasileira alcançou, avalia João Paulo Charleaux no A Hora Extra, do Canal UOL.
Ao fazer um "placar" da região, Charleaux disse que sete dos 12 países sul-americanos estão sob governos de direita, com diferenças de intensidade e de relação com instituições democráticas. Para ele, a régua do que se aceita como direita "convencional" se deslocou nos últimos anos.
São eles a Argentina, a Bolívia, o Paraguai, o Chile, o Equador e agora mais recentemente a Colômbia, que tem um presidente eleito de direita que ainda não assumiu. E o Peru, onde a apuração pode entrar pelo mês de julho afora, mas tudo indica que a Keiko Fujimori venha a governar também.
João Paulo Charleaux
Ele propôs separar a direita tradicional - que, segundo ele, aceita derrotas e não questiona eleições - de uma "nova direita" que participa do jogo democrático, mas tenta enfraquecer contrapesos quando chega ao poder.
Essa direita convencional hoje é uma direita mainstream, caracterizada principalmente pelo compromisso com a democracia. Então é uma direita que nunca questionou seriamente processo eleitoral, urna eletrônica, aceitava as derrotas e participava do jogo político sem maiores abalos. Mas depois surgiu uma nova categoria chamada, por esses estudiosos, de ultradireita, que são essas vertentes que começam a, de alguma maneira, questionar a democracia.
João Paulo Charleaux
Charleaux disse que, entre os líderes eleitos na região, a marca comum não é negar a democracia de saída, mas tentar "cooptar" instituições para reduzir limites ao Executivo, o que pode atingir tribunais, Congresso, imprensa e universidades.
É mudar de forma não natural composições de Supremo Tribunal Federal, é mudar regras de distritos eleitorais de forma inesperada, é tentar usurpar funções do Legislativo. Isso também pode ir na direção da imprensa e da academia.
João Paulo Charleaux
Já a extrema-direita, na classificação apresentada por ele, se distingue por recorrer à violência organizada para atacar fisicamente instituições e tentar derrubar a ordem democrática. Nesse grupo, afirmou, há poucos casos nas Américas.
No extremo-extremo a gente tem a extrema-direita, de fato, que tem uma palavra-chave aplicada a ela, que é violência. Além de erosionar internamente instituições democráticas, além de trabalhar contra os contrapesos, é um setor que ousa recorrer à força organizada para depor a democracia.
João Paulo Charleaux
Na comparação com os vizinhos, ele sustentou que o bolsonarismo foi o movimento que mais avançou nessa direção na região, ao associar discurso político a ações coordenadas de violência contra as instituições.
Eu acho que em toda a região o bolsonarismo foi quem foi mais longe nessa ousadia de tentar questionar a democracia por meio de violência organizada.
João Paulo Charleaux