30 junho, 2026

Revista Zum

 

ESTARMOS NUS por Paul Sepuya & Anna Ortega 
 
Na obra do fotógrafo estadunidense Paul Sepuya, a natureza eminentemente reflexiva e refratária do encontro, e da própria fotografia, são disparadores de um trabalho de mais de duas décadas. O encontro entre corpos é uma soma de reflexos.
 
Em conversa com a jornalista e pesquisadora Anna Ortega, o artista deixa claro que a fotografia é linguagem e objeto de constante provocação. Sepuya “faz uma espécie de cacofonia visual ao revelar a foto da foto da foto; o reflexo do reflexo; a moldura da moldura da moldura; a parte da parte da parte”, comenta Ortega.

ASSUSTAR A REALIDADE por River Claure & Marina Dias Teixeira 
 
A obra do boliviano River Claure é uma arqueologia visual na qual coexistem camadas distintas de tempo, história, território, identidade, realidade e fantasia. Suas fotografias, vídeos e instalações convidam a desvendar essas categorias que o artista não só borra, mas também questiona como parte fundante de um sistema capitalista.
 
Para a jornalista e curadora Marina Dias Teixeira, ao utilizar a brincadeira como dispositivo para animar seu grande teatro contemporâneo realizado em colaboração com comunidades locais, River se diverte ao misturar elementos de sua história familiar, suas raízes indígenas, suas contradições pós-internet, a moda, a literatura, o arquivo colonial latino-americano e mitos fundacionais.

APARIÇÕES DA CUCA por Isadora Jochims & Mariana Leme
 
A paisagem colonial da histórica cidade de Goiás (antiga capital do estado) é visitada pela figura folclórica da Cuca na fotoperformance Aparições da Cuca, da artista Isadora Jochims.
 
Em ensaio, a curadora e pesquisadora Mariana Leme revela o que resta de performático do passado colonial da cidade, que recebeu o título de patrimônio da humanidade pela Unesco, e as perturbações visuais da aparição da Cuca em um cenário tão limpo e bem cuidado.
 
“Por um lado, a fotografia de arquitetura não se realiza plenamente, na medida em que a Cuca entrou em seu enquadramento. Por outro lado, a performance feita pela artista desloca a atenção das especificidades de seu corpo-Cuca para o lugar que a cerca, impregnando-o igualmente de uma qualidade ‘performática’”, comenta Mariana.

CIANOTIPIA, MEMÓRIA E APRENDIZADO por Elizabeth Lee, Gabryella Roque & Laura Sapucaia
 

Selecionado na Convocatória de Fotolivros ZUM/IMS 2025, Fotográfico é um projeto elaborado pela fotógrafa, pesquisadora e professora Elizabeth Lee. A obra se apresenta como um fotolivro e como um manual de cianotipia, explorando a imagem em sua dimensão material.
 
Em entrevista concedida às pesquisadoras Gabryella Roque e Laura Sapucaia, Lee fala sobre sua trajetória artística, como as experiências familiares moldaram sua obra, e o processo de criação do fotolivro.

ARQUIVO ZUM
Retratos em disputa - Trabalhando em conjunto com o Memorial da de SP, o pesquisador e professor de direito Renan Quinalha resgatou do Arquivo Público do Estado de São Paulo dezenas de fotografias de pessoas que hoje chamaríamos de LGBTQIA+. São fotos de fichamentos policiais, resultado das recorrentes operações de “limpeza” realizadas em São Paulo. Tais prontuários deveriam “ser ilustrados com fotos dos pervertidos, para que os juízes [pudessem] avaliar seu grau de periculosidade”.

Território, processo e paisagem - Circulando pelo bairro Cidade Nova, em Salvador (BA), o fotógrafo Rafael Ramos faz das esquinas e calçadas do local onde nasceu e cresceu o seu objeto de pesquisa. Em conversa com Luara Macari, Ramos conta que busca criar pequenas conexões que investigam “o que acontece num limiar entre o visível (território do bairro em si) e o invisível (como eu percebo a Cidade Nova)”.

Vigilância e espionagem - “O que os artistas do século 21 podem fazer quando a imagem digital nos tornou reféns da vigilância estatal e corporativa?”. É o que se pergunta o fotógrafo, crítico e curador Julian Stallabrass em ensaio. Acompanhando o texto de Stallabrass, o artista irlandês Richard Mosse comenta a sua própria série Chegando (2017), uma complexa videoinstalação em que utiliza uma câmera termográfica militar.
RECOMENDAÇÕES 

Matéria publicada na revista piauí conta a história de Selomoh del Castilho (1826-1914), nascido no Suriname (a antiga Guiana Holandesa), pioneiro da fotografia e dono de um estúdio de retratos em Paramaribo entre 1857 e 1894. É de Selomoh a fotografia do Capitão Broos, uma raridade nas Américas, por registrar a figura histórica de um negro que fugiu da escravidão e lutou contra ela e o Estado colonial. No século 19, não existe outra foto equivalente, de um negro ou negra rebelado. [revista piauí]

A psicanalista Florencia Bernthal escreve, na revista Musée, sobre a experiência de visitar a exposição Rogue, da fotógrafa japonesa Mao Ishikawa. “Fui imediatamente impactada pela intimidade e honestidade do trabalho. Suas imagens não são meras fotografias, mas convites para refletir sobre como a expressão criativa, a identidade e o olhar se entrelaçam. Quem é essa pessoa por trás e diante da câmera? De que maneira a psicanálise poderia lançar luz sobre esse intercâmbio artístico e agregar algo valioso aos outros? Será que o leitor conseguiria vislumbrar o que eu percebo por meio da minha escrita?” [revista Musée]

No artigo All Images Are Quite Useless Now, publicado no site da revista Spike, o escritor e pesquisador de imagens Gideon Jacobs argumenta que a IA levou o meio da modernidade a um ponto de ruptura. “A esperança, então, é que a IA possa forçar nossas noções de identidade, nossas âncoras de significado e nossas concepções de verdade — como caranguejos cujas carapaças claramente já não servem mais — a sair de nossos espelhos e telas.” (Foto: Molly Matalon) [revista Spike]

Em texto no site The Public Source, o fotógrafo Hasan Fneich reflete sobre o poder do que ele define como imagem “pobre” em conflitos armados. “A imagem pobre é uma imagem de sobrevivência e de trânsito, uma imagem que circula rapidamente entre as pessoas. Ela é recortada, baixada, enviada e compartilhada novamente, a ponto de, por vezes, perder a sua origem. No entanto, o poder da imagem hoje não reside na sua nitidez visual, mas na sua capacidade de carregar um vestígio da história, mesmo que a imagem esteja tremida ou borrada. No contexto da guerra, a imagem pobre é, muitas vezes, a mais nítida." [The Public Source]

INSCRIÇÕES ABERTAS

Charta Award 2026 – até 25 de julho
Prêmio Foto em Pauta 2026 – até 2 de agosto
Photographic Communities: How People Collaborate with Images – até 31 de agosto
Thinking Photography and Writing Photography DGPh Award  – até 31 de outubro
2026 Lucie Foundation Photo Book Prize – até 15 de setembro


REVISTA ZUM #30


ROCHELLE COSTI & LISETTE LAGNADO / JAIDER ESBELL / TYLER MITCHELL & SARAH LEWIS / KARIM AÏNOUZ & FELIX VON BOEHM / VALENTINA TONG & GABRIELA LEANDRO PEREIRA / LILIANA PORTER & ADRIANA AMANTE / RENAN TELES & LILIA GUERRA / MARIE SUMALLA & GHAZAL GOLSHIRI / SIOBHAN ANGUS



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