Dois terremotos consecutivos — de magnitude 7,2 e 7,5, separados por menos de um minuto — sacudiram a Venezuela na noite de quarta-feira, deixando ao menos 235 mortos e mais de 4.300 feridos até a manhã desta sexta. O segundo foi o mais poderoso a atingir o país desde 1900. O epicentro foi próximo a Morón, no litoral norte, a cerca de 170 km de Caracas. A região mais atingida é La Guaira, área costeira que abriga o principal aeroporto do país — fechado por danos estruturais, o que complica a chegada de ajuda. Na capital, ao menos quatro torres residenciais desabaram. Moradores passaram a noite na rua, temendo réplicas — já foram registradas cerca de 30. As equipes de resgate são insuficientes para a dimensão do desastre. Em La Guaira, vizinhos escavavam os escombros com machados, martelos e as próprias mãos. Com a noite, vieram também saques em zonas comerciais. A presidente interina Delcy Rodríguez — que assumiu após a prisão de Nicolás Maduro pelos EUA, em janeiro — decretou estado de emergência e criou um fundo de reconstrução de 200 milhões de dólares. A Venezuela já vivia uma crise humanitária profunda antes dos terremotos. Hospitais sem insumos, economia destruída e mais de 7 milhões de emigrantes espalhados pelo mundo. "O problema não é só essa tragédia natural", disse à BBC o médico Pedro Javier Fernandez. "Nossos hospitais não tinham mais condições de atender as pessoas em um dia normal." Dezenas de países enviaram equipes de resgate e ajuda humanitária. Os EUA anunciaram 150 milhões de dólares e o envio de dois grupos especializados em busca e resgate urbano. México, El Salvador, Colômbia, Espanha e França também mobilizaram equipes. A ONU coordena operações no país e pediu ao governo que desbloqueie o acesso às redes sociais — medida parcialmente atendida: o X, bloqueado desde agosto de 2024, voltou a funcionar. Suprema Corte dos EUA amplia poderes de Trump sobre imigraçãoO Supremo Tribunal dos Estados Unidos decidiu, por 6 votos a 3, permitir que o governo Trump encerre as proteções humanitárias temporárias (TPS) concedidas a cerca de 350 mil haitianos e 6,1 mil sírios que vivem legalmente no país. A decisão, dividida estritamente por linhas ideológicas, abre caminho para deportações em massa e deve afetar ao todo cerca de 1,3 milhão de imigrantes de 17 países que dependiam do programa. O TPS foi criado pelo Congresso em 1990, com apoio bipartidário, para proteger pessoas cujos países de origem enfrentam guerras, desastres naturais ou crises graves. Na prática, as proteções foram sendo renovadas por décadas — o que o governo Trump chama de "anistia de fato". O ministro Samuel Alito, relator da maioria, concluiu que a lei impede revisão judicial das decisões do Executivo sobre o programa. "Este texto é claro, e seu significado é muito amplo", escreveu. A ministra Elena Kagan, na dissidência, citou declarações do presidente sobre os haitianos — incluindo a afirmação falsa de que comem animais domésticos — e escreveu que elas "praticamente gritam, em seus tons raciais, que a raça influenciou a decisão do presidente de remover os haitianos do país". No mesmo dia, o tribunal também autorizou a política de "devolução" de migrantes na fronteira sul, impedindo que peçam asilo antes de pisar em solo americano. A ministra Sonia Sotomayor, ao ler sua dissidência em voz alta — gesto que indica discordância profunda —, lembrou o episódio do navio MS St. Louis, em 1939, que transportava refugiados judeus e foi recusado pelos EUA, Cuba e Canadá. Muitos morreram em campos nazistas. "As consequências desta decisão são previsíveis. Mais pessoas vão morrer", escreveu. Nos próximos dias, o tribunal deve ainda decidir sobre o fim do direito de cidadania para filhos de imigrantes ilegais nascidos em solo americano. Irã ataca navio no estreito de HormuzÀs vésperas do fechamento de um acordo de paz com Washington, o Irã atacou com drone um navio porta-contêineres taiwanês — o Ever Lovely, da Evergreen Marine — no Estreito de Hormuz, na quinta-feira. O ataque suspendeu a operação da ONU de retirada de tripulantes de navios encalhados no Golfo Pérsico e reacendeu dúvidas sobre a solidez do cessar-fogo. O Estreito de Hormuz é a principal rota de escoamento de petróleo e gás do mundo. Antes da guerra entre EUA e Irã — iniciada em fevereiro —, mais de 130 navios passavam por ali diariamente. Na quarta-feira, 70 haviam transitado, o maior número desde março, aproveitando uma janela de dois meses negociada entre as partes. O ataque ocorreu horas depois de a Guarda Revolucionária Iraniana advertir que a rota alternativa pelo litoral de Omã era "inaceitável e extremamente perigosa". Preços do petróleo subiram mais de 2% após o incidente. O secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, em visita ao Bahrein para reunião com países do Golfo, rejeitou qualquer taxa ou restrição iraniana à navegação: "Águas internacionais não pertencem a nenhum Estado." O futuro das negociações permanece incerto. Europa em colapso com o calorA onda de calor que castiga a Europa ocidental bateu novos recordes históricos nesta quinta-feira. O Reino Unido registrou 36,4°C em Somerset — a temperatura mais alta já medida em junho no país. A Suíça chegou a 38°C em Basileia, superando marca de 1947. Em Paris, o termômetro atingiu 40,9°C na quarta, recorde absoluto para junho na cidade. Na França, três-quartos do território estão sob alerta máximo de calor. Ao menos três crianças morreram presas em carros aquecidos. Em Paris, o número de paradas cardíacas registradas em 24 horas foi mais de duas vezes o normal. Os hospitais chegaram ao limite: a cidade proibiu temporariamente o consumo de álcool em espaços públicos e a venda para viagem nos fins de semana, medida incomum adotada para reduzir internações. A Torre Eiffel e o Louvre reduziram os horários de funcionamento. Cientistas estimam que as temperaturas atuais estão entre 2°C e 4°C acima do que seriam sem as emissões de carbono dos combustíveis fósseis. "Esta onda de calor selvagem é o mais recente preço a pagar pela poluição dos combustíveis fósseis", disse Simon Stiell, chefe do clima da ONU. |