03 maio, 2026

Titãs, „Desordem” | Blog do Gerson Nogueira

 


„Desordem” é uma das canções mais politizadas da discografia dos Titãs. Faixa do disco „Jesus não tem dentes no país dos banguelas”, de 1987, foi um grande hit radiofônico e se insere na mesma vibe furiosa de petardos como „Bichos Escrotos”„Estado Violência”„Cabeça Dinossauro”„Vossa Excelência” e „Polícia”, carregados de indignação e rebeldia com a realidade social do país. Aqui um registro ao vivo empolgante, na turnê do disco Nheengatu, em 2015, durante o conturbado período que precedeu o golpe contra a presidente Dilma Rousseff e que resultaria nas atribulações subsequentes.

Composta pelo trio Arnaldo Antunes, Sérgio Britto e Charles Gavin, a música coloca o dedo na ferida na percepção de que a linha entre justiça e repressão policial tende a ser cada vez mais esgarçada. O caos representado pelos linchamentos, chacinas e conflitos entre torcidas de futebol é abordado com crueza. „Quem quer manter a ordem? Quem quer criar desordem?”, questiona a letra.

Para acentuar a carga dramática, a música foi executada em shows com os integrantes da banda usando máscaras de palhaço, externando a desconfiança em relação às instituições e aos poderes constituídos. No aspecto musical, „Desordem” é um rockão pós-punk com batida marcante, quase marcial, valorizada por rajadas de guitarras emoldurando a voz de Sérgio Britto, cuspindo as palavras.

Abaixo, a letra completa:

Os presos fogem do presídio
Imagens na televisão
Mais uma briga de torcidas
Acaba tudo em confusão

A multidão enfurecida
Queimou os carros da polícia
Os preços fogem do controle
Mas que loucura essa nação

Não é tentar o suicídio
Querer andar na contramão? Vai, vai

Quem quer manter a ordem?
Quem quer criar desordem?
Quem quer manter a ordem?
Quem quer criar desordem?

E não sei se existe uma justiça
Nem quando é pelas próprias mãos
População enlouquecida
Começa então o linchamento

Não sei se tudo vai queimar
Como algo líquido inflamável
O que mais pode acontecer
Em um país pobre e miserável?
E ainda pode se encontrar
Quem acredita no futuro, diz, diz!

Quem quer manter a ordem?
Quem quer criar desordem?
Quem quer manter a ordem?
Quem quer criar desordem?

Oh!

É seu dever manter a ordem
É seu dever de cidadão
Mas o que é criar desordem
Quem é que diz o que é ou não?

São sempre os mesmos governantes
Os mesmos que lucraram antes
Os sindicatos fazem greve
Porque ninguém é consultado
Pois tudo tem que virar óleo
Pra pôr na máquina do estado, diz, diz!

Quem quer manter a ordem?
Quem quer criar desordem?
Quem quer manter a ordem?
Quem quer criar desordem?

Quem quer manter a ordem?
Quem quer criar desordem?
Quem quer manter a ordem?
Quem quer criar desordem?

Senhores, senhores!
Minha senhora!