 | O jovem Daniel Moreno-Gama usa cadeira para forçar entrada do prédio da OpenAI em San Francisco | Divulgação/FBI |
| Ataque à OpenAI: por que IA desperta raiva incendiária na Gen Z |
|  | Helton Simões Gomes |
| Daniel Moreno-Gama, um desconhecido de 20 anos, viajou 3.125 quilômetros da pequena Spring, no Texas, até San Francisco, na Califórnia, para incendiar a casa de Sam Altman, um dos maiores executivos da inteligência artificial, e depois ir ao prédio da OpenAI e queimar tudo por lá. Não virou tragédia. Embora improvável, o encontro não é inesperado. Daniel é da Gen Z, geração cada vez mais desgostosa e ansiosa com a IA, que tem em Sam um ícone. Embora a violência seja injustificável, o episódio simboliza a que ponto pode chegar o amargor de jovens em relação a uma incensada e controversa tecnologia. E, já que somos todos humanos aqui, note quão bizarro é ter emoções por algo como a interface gráfica de linhas de código. Mas está acontecendo —e o pior nem é isso. Nos Estados Unidos, pesquisas vêm captando esse espírito, cada vez mais latente. Aqui no Brasil, um novo e inédito índice de confiança em plataformas digitais, a que Radar Big Tech teve acesso, mostra como os jovens estão longe da empolgação dos millennials pela IA. E o motivo, tanto lá quanto cá, é tão difícil de contornar quanto de solucionar e terá repercussões sérias: como ter fé num futuro que exigirá a coexistência com uma tecnologia simultaneamente eficiente em executar tarefas antes destinadas a mim e em fechar a porta de empresas na minha cara? |
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 | Daniel Moreno-Gama se prepara para jogar o coquetel Molotov na casa de Sam Altman, CEO da OpenAI | Divulgação/FBI |
| | Brasileiros entre 16 e 24 anos são os que mais usam IA, aponta a TIC Domicílios. Com 55% deles admitindo usar a tecnologia, a faixa está está à frente dos jovens adultos de 25 a 34 anos (44%) e de crianças e adolescentes de 10 a 15 anos (40%). A pesquisa do Cetic.br (Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade de Informação) mostra muito, mas não tudo, já que: - É ótima régua para medir a adoção, mas não a percepção sobre uma tecnologia. É o que faz o Índice de Confiança e Segurança Digital, criado pelo Reglab, um think tank.
- O indicador captou que jovens entre 18 e 24 anos até confiam na IA, mas menos do que os adultos com idade de 25 a 34 anos;
- IA é só um dos cinco segmentos da economia digital avaliados pelo índice global, composto ainda por redes sociais (Instagram, X, LinkedIn), streaming (seja de catálogo, como Netflix, ou de conteúdo gerado por usuários, como YouTube e TikTok), plataformas de serviço por demanda (de transporte, como Uber, e de delivery, como iFood) e governo digital, caso do Gov.br
- Como toda edição inaugural, o índice traz só uma foto da situação; filme mesmo do humor digital do brasileiro só com a regularidade nas divulgações. Nos EUA, onde a captura dessas variações já ocorre há mais tempo movimento, o saldo é preocupante;
- Só 18% dos jovens de 14 a 29 anos têm alguma esperança na IA, aponta a pesquisa "O paradoxo da IA", do instituto Gallup, da Walton Family Foundation e do fundo GSV Ventures;
- Com nome provocativo de propósito, o estudo capta uma aparente contradição: a Gen Z reconhece a importância da IA para seu futuro profissional e educacional, mas está cada vez menos entusiasmada e mais descontente com a tecnologia;
- Emoções negativas, como ansiedade (28%) e raiva (18%), estão presentes até entre usuários frequentes da tecnologia e que possuam mais sensações favoráveis, como curiosidade (69%), empolgação (44%) e esperança (38%);
- Os jovens constróem essas percepções a partir do impacto da IA sobre suas vidas. E aqui há uma tripla má notícia para as empresas que criam essas plataformas;
- Primeiro, eles acham que IA ou atrapalha ou simplesmente não altera em nada sua criatividade (69%), seu pensamento crítico (74%) e a busca por informação (61%). Se a foto é ruim, o filme é pior, porque em 2025 o volume de jovens com essas visões era menor. Quebrando um pouco o dado, há algo alarmante: a maior parte dos jovens diz que a IA não ajuda nem atrapalha -o que, convenhamos, equivale a dizer que é inútil- a ter novas ideias (31%), pensar profundamente (32%) ou achar informação certeira (23%);
- Segundo, está minguando o grupo que vê vantagens na IA: para 56% deles, a tecnologia turbina a eficiência, enquanto 46% admitem acelerar o aprendizado. Do ano passado para cá, o primeiro agrupamento murchou 10 pontos percentuais e o segundo, 7 pontos;
- Por último, para 48% do Gen Z que trabalham, os riscos da IA sobre a força de trabalho excedem os benefícios --salto de 11 pontos em relação a 2025.
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 | Daniel Moreno-Gama atira o artefato incendiário na casa do CEO da OpenAI | Divulgação/FBI |
| | Daniel Moreno-Gama foi preso ao tentar arrombar o prédio da dona do ChatGPT. Pretendia incinerá-lo. Com ele, agentes do FBI acharam documentos em que expunha críticas à IA e propunha matar top executivos de big techs —havia lista com os endereços deles. Ele foi indiciado por crimes, como tentativa de homicídio e incêndio criminoso. Pode pegar de 19 anos a prisão perpétua. Mas a coisa pode piorar: se ficar claro que tentava alterar políticas públicas ou coagir o governo, o jovem será indiciado por terrorismo interno. Daniel pode ter surpreendido algumas pessoas, mas suas ideias já estavam na rede. Antes de jogar um coquetel Molotov na casa de Altman, ele escreveu no Instagram e no Substack, ainda em 2024, que a IA é um risco existencial, que os chefes de big techs não têm valores morais e que o CEO da OpenAI é um "mentiroso patológico". A frustração de seus colegas de Gen Z com a IA também tem suas raízes. E, de cara, desarma quem atribui essa sensação a um desconhecimento da tecnologia. Pelo contrário. Muitos jovens se apóiam em chats de IA para comprar, receber conselhos amorosos e psicológicos ou para fazer a lição de casa. Além de comporem o grupo que mais usa essas ferramentas, conhecem benefícios, potenciais e o funcionamento delas. A desesperança decorre justamente por saberem demais onde tudo isso vai dar. |
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 | Eu vejo as pessoas de 18 a 24 anos mais receosas, e parte disso é um pessimismo em relação ao futuro delas no mercado de trabalho. Qualquer relatório de consultoria sobre como a IA vai mudar o trabalho também conclui: 'Puxa, não precisaremos mais de estagiário, de gente júnior'. E, ao consumir esse tipo de notícia, os jovens pensam: 'Calma, mas o estagiário sou eu'. Enquanto os de 25 a 34 anos ou os de 35 a 44 anos recebem outra mensagem: 'Puxa, não vou precisar mais de estagiário, vou fazer sozinho e economizar na empresa'. | | Pedro Ramos | diretor-executivo do Reglab |
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 | Daniel Moreno-Gama foge após o atentado na casa de Sam Altman | Divulgação/FBI |
| Não é bem assim, mas tá quase lá |
| O avanço da IA sobre oportunidades profissionais já é realidade em países desenvolvidos e começa a ser sentida no Brasil. Menor chance de emprego e renda são consequências para os jovens, mas há problemas palpáveis para as empresas que vendem esses produtos. A adoção pelo público jovem dá o tom de quão vibrante é uma tecnologia. Já o entusiasmo deles é termômetro de longevidade. Segundo o indicador do Reglab, os millenials são os mais confiantes nas redes sociais, mesmo com a saraiva de críticas a elas. Esses jovens adultos viveram um mundo pré-Facebook e lembram dessas plataformas os aproximando de amigos e familiares. Já a Gen Z nasceu nessa realidade estabelecida e, enquanto crescia, só viu as polêmicas se acumularem. Por isso, o mau humor dela em relação à IA é recado para as big techs. Precisa mudar a mensagem para mostrar que essas plataformas podem ser caminho de empoderamento para essas pessoas. Como o principal negócio delas são os planos pagos ou corporativos, existe uma comunicação muito alinhada a empresas. A lógica é eficiência, aumentar a receita, cortar custos. Para aumentar a confiança dos jovens de 18 a 24, a mensagem precisa ser adaptada, voltada a como eles podem usar essas plataformas a favor deles, expandir suas capacidades individuais (...) E eu não vejo nenhuma dessas grandes empresas usando esse tipo de comunicação Pedro Ramos, do Reglab Mesmo que elas queiram, não poderão brigar com o produto que têm nas mãos. Remodelar o discurso sobre a IA, criada justamente para tornar processos mais eficientes ao executá-los por nós, pode soar tão artificial quanto a resposta a um prompt mal escrito. |
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