Enquanto Você Está Aqui é um livro para todos aqueles que não desejam morrer distraídos – para aquelas pessoas que, mesmo diante de um tema tão espinhoso quanto inevitável, preferem ter informações, analisar opções, avaliar possibilidades, e não correr o risco de se ver enredadas em protocolos e providências que não levem em conta seus desejos. Sim, mesmo diante da morte, é possível desejar. Ao lançar a pergunta “Afinal, como quero ser quando morrer?”, Camila Appel nos insta também a aprender algumas coisas sobre viver melhor. Trata-se de um livro informativo e, ao mesmo tempo, um debate sobre a dificuldade que sentimos para abordar esse assunto que, queiramos ou não, fará parte da vida de todos nós: morrer. Camila Appel é filha de uma dramaturga. Quando era adolescente, sua mãe sentia que não conseguia se comunicar bem com a filha, transmitir a ela todos os conselhos e temas que gostaria. Então, resolveu escrever um livro com o que queria dizer à filha. Muitos anos mais tarde, é Camila quem sente que a comunicação com sua mãe, de 82 anos, não anda lá essas coisas. Ela sente dificuldades para falar sobre esse momento que atravessam juntas e sobre a finitude. “Quando a pessoa está longe da morte, não podemos falar de morte porque é algo distante da realidade dela. E quando a pessoa está perto da morte, não podemos falar de morte justamente porque está perto da realidade dela. Aí pronto, não falamos nunca”, escreve ela. Camila respirou fundo e, no livro, vai abordando temas como tipos de velório e de enterro, direitos de pacientes, suicídio, suicídio assistido, eutanásia, como fazer um testamento vital, bem como diferentes concepções de morte em religiões e culturas variadas. Uma espécie de “Tudo o que você queria saber sobre a morte, mas não tinha coragem de perguntar”. O interesse pelo tema nasceu quando ela começou a escrever obituários para o jornal Folha de S.Paulo, onde hoje mantém um blog e uma coluna. Segundo conta, não saber o que vem depois da morte lhe traz inquietude. Em vez de varrer sua inquietude para as profundezas, Camila resolveu pesquisar o assunto. No posfácio, a médica paliativista Ana Claudia Quintana Arantes conta que, em sua experiência, pessoas que conseguiram conversar sobre a morte, em geral, vivem o luto com mais serenidade. Segundo Quintana Arantes, não saber dói mais. Por isso, é melhor falar enquanto há tempo. Até porque falar sobre o fim não apressa sua chegada, mas pode nos permitir viver melhor até lá. |
Eles tomaram a pílula vermelha e enxergam o que o sistema não quer que a gente saiba. Sabem ser homens de verdade. Machos alfa mesmo. Não se dizem misóginos, pelo contrário. “Eu amo as mulheres e eu as entendo. Por isso, sei o que é melhor para elas. Elas querem um cara para liderá-las e dominá-las”, esclarece Myron Gaines, um dos cinco entrevistados pelo jornalista Louis Theroux em Por Dentro da Machosfera. O documentário da Netflix mergulha no universo da masculinidade tóxica onde os red pills fazem a festa — e lucram muito. Durante uma hora e meia, Theroux não precisa se esforçar muito para mostrar que os homens que a produtora chama de “controversos influenciadores na internet” são, na verdade, cruéis e, em certos casos, criminosos. Enquanto acompanha a rotina dos alfas – visita às mansões, participação em podcasts e presença em círculos sociais —, o exercício jornalístico básico de deixar o entrevistado falar é chave. A cada pergunta simples, os personagens deixam transparecer a misoginia, o racismo, a homofobia e o antissemitismo de suas crenças e conteúdo. Através de streams ao vivo, podcasts e redes sociais, essas figuras vendem um estilo de vida e mantras violentos, mascarados de autoconhecimento. Além de visualizações e dinheiro, ganham uma legião de fãs que compactuam com as ideias preconceituosas e, muitas vezes, mirabolantes. Da monogamia unilateral ao mundo dominado por um clã satânico, o tom satírico do documentário vem menos de Theroux do que da própria existência patética e contraditória dos influencers da machosfera. A obra só é fraca, entretanto, quando não traz mais dos impactos trágicos desses comportamentos. A cena de um homem sendo agredido em público pelo britânico Harrison Sullivan (ou HS TikkyTokky), enquanto a equipe dele transmite o momento ao vivo, choca Theroux e os espectadores — do documentário, porque os espectadores do stream dão risada. É um fragmento de uma onda alarmante de jovens que veem a violência como natural, o assédio como diversão e a mulher como descartável. No Brasil, esse resultado já está quantificado. Em 2025, foram 1568 vítimas de feminicídio. |
A HBO é uma produtora conhecida por séries ambiciosas, mas, dentre suas séries, há sempre alguma que se destaca por ser ainda mais original que seus pares – o carro chefe da marca. Historicamente, esse papel coube a produções como Família Soprano, The Wire, e, mais recentemente, Succession. Industry – uma série ambientada no mercado financeiro de Londres – tem sido cotada para ocupar esse lugar desde a sua primeira temporada, lançada no fim de 2020. Emprestando um pouco o espírito tragicômico que guiou Succession – com diálogos virtuosos e engraçados que compõem um retrato autoconsciente da mais rarefeita elite – a série acompanha vários jovens que se conhecem num programa de trainee da Pierpoint & Co, um banco de investimento, dramatizando como os rumos de cada um se cruzam em anos posteriores. Há diversos personagens, mas dois se destacam. Harper Stern, uma espécie de prodígio inebriada com o próprio talento, vem de família pobre, é americana e das pouquíssimas pessoas negras na instituição. Yasmin Kara-Hanani (Yas), sua colega no programa de trainee, tem ascendência libanesa, é herdeira de um império editorial e cresceu em Londres, cercada de privilégios que lhe pesam, mas dos quais nunca abriria mão. Ambas carregam traumas relacionados à família, e a amizade das duas é um dos fios narrativos da série. Apesar da diversidade dos personagens e do virtuosismo do roteiro – cheio de reviravoltas e ganchos que prendem o espectador – as três primeiras temporadas são um tanto escravas de uma fórmula, explorando um universo amoral em que nada parece importar a não ser os interesses individuais de cada um. Essa crônica neoliberal tem vários antecedentes, e é quase um clichê no tratamento dramático do mercado financeiro – filmes como Wall Street- poder e cobiça e O Lobo de Wall Street são apenas alguns dos exemplos mais famosos. Mas a quarta temporada da série, lançada no início deste ano, escapa à facilidade desse padrão. O que eram subtramas dispersas se unificam num conflito central: a disputa entre uma empresa do setor de tecnologia e aqueles que querem vê-la falir. Nesse contexto, o casamento de Yasmin com Sir Henry Muck, um aristocrata inglês deprimido e viciado que fracassa em todos seus empreendimentos, torna mais complexa a personagem. Da mesma forma, Harper, que até então era julgada por si mesma, pelo mercado e talvez até pelos espectadores como a maior manifestação do éthos de cada um por si, é colocada numa posição na qual seu fundo pode gerar um grande benefício coletivo. A grande sacada dos roteiristas é inverter a fórmula dos clássicos filmes do gênero: em vez de juntar a conveniência pessoal às decisões amorais, a conveniência se torna potencialmente moral. Além da ambiguidade inerente à proposta, o brutal desconforto dos personagens em terem que lidar com a própria identidade em circunstâncias tão incomuns é o que faz a série transcender suas temporadas anteriores. |
“Evito leite e derivados. Fujo dos desconfortos gastrointestinais que me causam. Muita gente me evita, também fugindo de desconfortos. A mulher na esquina segura a bolsa mais firme enquanto eu passo. Suas vísceras imaginam o perigo, acendem o alerta. Eleva-se o nível de cortisol no seu corpo um tanto decadente, que segura uma falsificação tosca de uma marca de bolsas de couro.” É assim, questionando, distanciando e aproximando diferentes tipos de “intolerâncias”, que começa o conto homônimo do escritor Paulo Vicente Cruz, publicado na edição de abril da piauí. O narrador discorre sobre algumas resistências que possui – “Não suporto chuva”, diz –, mas sempre colocando-as frente a outras intolerâncias mais profundas, de natureza social e política. Seja assumindo a voz dos autointitulados “heróis” que metem o “pé na porta” e dão “porrada em quem aparecer na frente pra defender”, ou tendo que ouvir os comentários condescendentes e preconceituosos de um taxista, Vicente Cruz faz um retrato de uma sociedade atravessada por inúmeros desconfortos, sendo que os principais e mais violentos parecem os mais entranhados. |
Enviado por Revista Piauí |
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