18 de Abril de 2025
Radicalmente moderado
Olá, enquanto Trump vai à guerra e o centrão incomoda no Congresso, Lula renova os votos de paz e amor.
.Tá ruim, mas tá bom. A última pesquisa DataFolha mostra que a sangria do governo pode ter chegado ao fim. O número de eleitores que consideram o governo ótimo ou bom passou de 24% para 29% em relação a fevereiro, e os que consideram ruim ou péssimo passaram de 41% para 38%. Não dá pra dizer que é um desempenho bom, mas aponta uma reversão na tendência de queda na popularidade dos últimos meses. Na avaliação de Aldo Fornazieri, três fatores explicam o resultado. Em primeiro lugar, o susto das pesquisas fez Lula e seus ministros se mexerem e mostrarem serviço. Contribuiu também o impacto do indiciamento de Bolsonaro e a consequente desmoralização da oposição. Resultado disso é a dificuldade de Tarcísio de Freitas apresentar-se como uma candidatura viável para 2026. E no cenário externo, o perfil insano de Trump e sua guerra tarifária talvez tenha feito uma parcela dos eleitores reconsiderarem as vantagens de um presidente moderado e racional, além das oportunidades que se abrem para o Brasil se afastar dos Estados Unidos e se aproximar da China e da Europa. Mesmo com o respiro nas pesquisas, o jogo não está ganho. O principal problema é que a médio e longo prazo as notícias não são boas. A inflação dos alimentos tem sido resiliente, afetando a segurança alimentar da maioria da população. Assim como, nos cálculos Unctad, o PIB do Brasil deve ser impactado pela crise mundial este ano, com um crescimento módico de 2,2%, bem inferior aos 3,4% estimados para o ano passado. E, mesmo que a ampliação das isenções no Imposto de Renda saia do papel, o desmonte dos direitos trabalhistas, agora com uma pejotização generalizada liderada pelo STF, só promete trazer mais precariedade para um cenário já desastroso.
.Tem, mas acabou. A apresentação do Projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias para 2026 traz uma triste constatação: o Estado brasileiro existe, mas não por muito tempo. O PLDO prevê que o país terá um microscópico crescimento do PIB de 0,25% e alcançará um superávit primário de R$ 38,2 bilhões em 2026. Na verdade, a meta do arcabouço seria um superávit de R$ 34,3 bilhões, mas o governo prevê que entregará mais do que foi pedido, confiando que vai aumentar a arrecadação, contando obviamente com a aprovação da taxação dos super ricos. Para 2027, a situação muda, porque aí entram na conta os precatórios que, até o próximo ano, não serão contabilizados no ajuste fiscal. O pior é que a previsão do governo é de superávits crescentes: R$ 73,4 bilhões (0,5% do PIB) em 2027, R$ 157,3 bilhões (1% do PIB) em 2028 e , em 2029, R$ 210,7 bilhões (1,25% do PIB). Já as despesas obrigatórias (pessoal, encargos sociais e previdência) devem cair gradualmente de 17,4% do PIB em 2026 para 16,8% em 2029. E o pagamento da dívida interna só cairia do patamar de 80% do PIB lá por 2035. Mesmo com um Estado mínimissímo e que garante o serviço da dívida, juros altos e o sacrossanto arcabouço fiscal, nem assim o mercado financeiro descansa. Bastou o governo protocolar o PLDO para a Faria Lima, através da mídia, chiar que o governo não vai cumprir a meta e que deveria fazer ainda mais cortes nos investimentos. O alvo do mercado financeiro é o combalido salário mínimo - que em 2026 deve ser de R$1.630 - como expressou sem constrangimentos o ex-presidente do BC, Armínio Fraga, que propôs um congelamento salarial de 6 anos para os trabalhadores.
.História sem fim. Apesar da falta de apoio popular, a anistia dos golpistas seguirá em pauta na conjuntura política por algum tempo. Afinal, se a longo prazo é a esperança de alguma jurisprudência que possa salvar Jair Bolsonaro, a curto prazo é o tema que a extrema-direita encontrou para ocupar a agenda política, tomando o lugar de debate de projetos do interesses do governo, como a PEC da segurança ou a isenção do Imposto de Renda. E, nisso, estão sendo bem sucedidos. Graças à sagacidade do líder do PL, Sóstenes Cavalcanti, que não apenas conseguiu protocolar o pedido de urgência na votação com mais assinaturas do que o necessário, como provocou fissuras na base governista, já que mais da metade dos assinantes são de partidos com cargos na Esplanada dos Ministérios. Se até aqui o governo não havia testado sua base sob a gestão de Hugo Motta, agora sabe que nada mudou em comparação aos tempos do toma-lá-da-cá de Arthur Lira. Mais do que uma traição, a adesão ao projeto também é uma forma do Congresso, ainda magoado pela disputa das emendas, bater no STF. Depois de perder tempo sem entrar em campo para retirar as assinaturas dos aliados, o Planalto levou uma bronca do STF e recebeu o recado de Hugo Motta de que não vai ficar sozinho com esta bomba na mão. Correndo atrás do prejuízo, o governo agora trabalha com um mapa de cargos na mão para que deputados da base que assinaram votem contra a urgência em plenário ou ainda que subscrevam outro ofício pedindo a retirada da urgência. Em caso de outra derrota, o Planalto e Hugo Motta já admitem a aprovação do projeto de anistia desde que exclua Bolsonaro e os generais que comandaram o golpe. Tanto essa proposta quanto a revisão das penas é duramente rechaçada pelo STF. Sobraria ainda, com uma derrota na Câmara, tentar enterrar o projeto no Senado.
.Ponto Final: nossas recomendações.
.A batalha tecnológica entre Estados Unidos e China. No Le Monde, Lauro Accioly Filho discute a disputa estratégica por detrás da guerra tarifária de Trump.
.Estudo refuta ideia de que "renda grátis" induza à preguiça. Pesquisa na Alemanha aponta que pessoas com acesso à renda mínima continuam trabalhando. No DW.
.6 em cada 10 brasileiros apoiam redução da jornada de trabalho. O Poder 360 traz dados do Instituto Nexus que mostram que brasileiros gostariam de trabalhar menos.
. Maiores vítimas de despejo, mulheres negras podem levar até 184 para ter casa própria . Relatório do Sem moradia digna, não há futuro desvenda a desigualdade de acesso à moradia no Brasil. No Marco Zero.
. Privatização, privilégio, racismo e perseguição: conheça a Esalq, que forma quem defende o agro . Veja as relações e valores compartilhados entre o agronegócio e a escola de agricultura mais famosa do país. No Joio e o Trigo.
.A surpreendente explicação para a explosão do pistache no Brasil. De forma didática, a BBC explica como os Estados Unidos nos inundou com pistache.
.A jornada musical de Milton Nascimento e seu legado transcendental. No documentário Milton Bituca Nascimento, as diversas facetas do músico brasileiro. No Le Monde.
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