Não é exagero dizer que as polícias militares hoje são instituições bolsonaristas. Há inúmeros relatos de perseguição a policiais não bolsonaristas. Nas eleições de 2022 em São Paulo, soldados foram pressionados por seus superiores a votar em Bolsonaro e Tarcísio.
Também não é coincidência a enxurrada de candidatos bolsonaristas oriundos das fileiras das polícias militares. Nas últimas eleições municipais, dos 14 candidatos a prefeito pelo PL, partido de Bolsonaro, 4 eram policiais.
A ideologia de extrema direita está tão impregnada nas mentes e corações dos integrantes da corporação que não importa tanto se o governador que a comanda seja ou não bolsonarista. A PM da Bahia, por exemplo, governada por políticos do PT desde 2007, é hoje a que mais mata no país.
Aqui é preciso dizer: governadores petistas pouco ou nada fizeram para estancar a bolsonarização da instituição no estado. A Polícia Militar baiana segue matando de forma indiscriminada, principalmente pretos e pobres.
Já está naturalizada na sociedade brasileira a ideia falaciosa de que a matança torna a sociedade mais segura — isso faz com que até mesmo políticos progressistas façam vista grossa visando ganhos eleitorais.
Por outro lado, quando há o endosso amplo, geral e irrestrito de um governador bolsonarista, o guarda da esquina tende a ficar ainda mais indomável e violento.
Os bolsonaristas que comandam a Segurança em São Paulo — o governador Tarcísio e o secretário Derrite — são os principais fiadores da selvageria descontrolada que tomou conta da polícia no estado. Dados do Ministério Público mostram que as mortes por policiais tiveram um aumento de quase 100% nos dois primeiros anos da gestão Tarcísio. Trata-se de um projeto claro e definido.
Antes de se tornar secretário, Derrite era um policial militar que dizia que não ter pelo menos três mortes no currículo seria motivo de vergonha para qualquer policial. Foi essa postura que o fez ser escolhido por Tarcísio.
Derrite foi o responsável pela Operação Verão, que resultou na morte de 56 pessoas, sendo a operação com o maior número de assassinatos desde o massacre do Carandiru, em 1992.
Muitas das vítimas foram executadas sem trocar tiros com os policiais. Toda essa carnificina não resultou em mais segurança para a população. Os crimes de estupro, latrocínio e furto aumentaram em 2025 no estado, assim como o número de vítimas mortas em assalto na capital.
A gestão Tarcísio-Derrite reverteu uma tendência de queda no número de mortes por policiais que vinha acontecendo ano após ano desde 2021. Em 2024, a PM matou 65% a mais do que em 2023, segundo um relatório do Ministério Público de São Paulo. Para alegria da Ku Klux Klan, a maioria das vítimas (64%) é composta por pretos e pardos.
Os dados mostram que, sob o governo Tarcísio, a polícia mata um adolescente a cada nove dias — a maioria deles (68%) também é composta por pretos e pardos. “Vocês soam como nós”, diria o líder da Ku Klux Klan para Tarcísio e Derrite.
É curioso notar como essa polícia que se orgulha em “matar bandidos” é a mesma que tem relações cada vez mais íntimas com o crime organizado, mais especificamente com o Primeiro Comando da Capital, o PCC, como temos visto com frequência no noticiário. O salvo conduto para matar conferido pelo governador aos policiais militares está resultando em um processo de milicialização em São Paulo.
Para o jornalista e doutor em Ciências Políticas da USP Bruno Paes Manso, o descontrole das polícias, aliado ao discurso de guerra, é a semente dos grupos paramilitares. Foi assim no Rio de Janeiro.
Antes de começar a gestão bolsonarista da Segurança em São Paulo, Paes Manso previu o que aconteceria em São Paulo: “O descontrole policial, caso ocorra, coloca inclusive o risco de associação [com o PCC].
Não estou dizendo que vai acontecer, mas o discurso de fragilização dos controles policiais, que estamos conhecendo melhor com o bolsonarismo, pode estimular parcerias, sociedades. A partir do momento em que se dá carta branca para os policiais serem violentos e usarem os uniformes e as armas com legitimidade para fazer a guerra, eles podem querer dinheiro com isso, enriquecer assim.
É um risco presente em todos os estados e, com o PCC, é uma possibilidade de parceria, de participar dos mesmos esquemas, de garantir cobertura, como já aconteceu com diversos policiais ligados ao crime”.
A gestão bolsonarista da segurança pública em São Paulo pavimentou o caminho para a formação de milícias e a associação com o PCC. Perceba como o ritual de estética nazista do BAEP não representa um ponto fora da curva na gestão Tarcísio-Derrite. Ele faz parte do pacote de ideologias de extrema direita que estão incrustadas na Polícia Militar.
A matança de pretos e pobres é tratada como mero efeito colateral, enquanto o ritual inspirado na Ku Klux Klan é só uma infeliz coincidência. Mesmo com todo esse descalabro na segurança em São Paulo, onde a polícia mata mais e a população continua a ver a criminalidade crescer, Tarcísio foi eleito pelas elites como o seu candidato à presidência da República.
E assim segue a marcha bolsonarista na segurança pública em São Paulo: fechada com o bolsonarismo, inspirada na Ku Klux Klan e cada vez mais próxima do PCC.