O que seria de uma empresa de bebidas, cujo carro-chefe é o refrigerante mais famoso do mundo, em um planeta com escassez de água? Não se trata de nenhum cenário apocalíptico e sim de uma realidade provável. É só lembrar que no momento pelo menos 50% da população mundial - estamos falando de cerca de 4 bilhões de pessoas - já enfrentam falta de água no mínimo uma vez ao mês. Ou seja: as torneiras estão secando.
Se não vai ter água suficiente, que dirá uma Coca-Cola gelada? A gigante fabricante de bebidas já entendeu o recado faz tempo - tanto que elegeu este tema como uma de suas principais prioridades. A ideia é investir pesado em tecnologias para tornar suas operações cada vez mais eficientes - e isso significa utilizar menos água em tudo. Entre as inovações, a empresa acaba de trazer ao Brasil um sistema de nanobolhas, que permite reduzir de 17% a 40% o uso de água em processos industriais, como tratamento de efluentes, lavagem de esteiras e de embalagens retornáveis.
A Coca-Cola Brasil também apoia a tecnologia Suindara, que monitora, comunica e mobiliza, por satélite, diferentes agentes no combate a incêndios florestais e desmatamento no Cerrado, berço de 8 das 12 principais bacias hidrográficas brasileiras. "Áreas queimadas absorvem cinco vezes menos água que áreas preservadas", lembra Rodrigo Brito, diretor de Sustentabilidade da Coca-Cola Brasil e Cone Sul. Esta tecnologia cobre cerca de 8 mil hectares no país, incluindo o Parque Estadual da Serra dos Pirineus (GO), Parque Nacional de Brasília e Boca da Mata e a APA de Cafuringa (DF).
Na entrevista a seguir, Rodrigo Brito conta um pouco mais sobre a importância da eficiência hídrica na companhia, os investimentos nesta área, e os desafios de uma indústria que, assim como todos nós, depende da água para sobreviver.
Ecoa: A escassez de água é hoje um dos principais riscos de sobrevivência que a humanidade enfrenta. Como uma indústria do porte da Coca-Cola enxerga esta questão?
Rodrigo Brito: A água é um ciclo fechado no planeta. Você não cria água e você não perde água. Existe o mesmo volume de água na Terra que já existia há milhões de anos e ele permanecerá o mesmo durante os próximos milhões de anos. Então, qual é o desafio? A água estar disponível onde a gente precisar. Na zona sul da América Latina temos 64 fábricas e, só no Brasil, são 27. Precisamos garantir a perenidade destas operações que só acontecerão se houver uma perenidade dessa água.
Ecoa: Como fazer isso?
Rodrigo Brito: Temos três pilares e o primeiro deles é otimizar ao máximo nosso uso e consumo. Há 25 anos, usávamos o dobro de água que usamos hoje nos nossos processos. Para chegar nesta conta, lançamos mão de muita tecnologia, entre elas as chamadas nanobolhas. Existe um equipamento que nanifica gases, ou seja, divide uma bolha em milhares de nanobolhas. Então, se eu preciso lavar uma esteira, por exemplo, para produzir Sprite no mesmo lugar em que estava o Guaraná Jesus, tenho que zerar as contaminações. Com a nanobolha, a gente reduz de 17% a 40% o volume de água nesse processo porque o gás tem muito mais contato com a superfície. As fábricas mais modernas do Brasil já estão chegando no consumo de apenas 200 ml de água por litro envasado. Sem contar que a água que volta para a natureza, chega mais pura e oxigenada. As nanobolhas também são muito úteis na lavagem das embalagens retornáveis.
Ecoa: Estas garrafas retornáveis, apesar de evitarem o descarte, têm um impacto considerável no consumo de água, certo?
Rodrigo Brito: Este é um debate profundo. A embalagem retornável de plástico PET é muito virtuosa ao evitar resíduos. Ela tem 15 vidas, ou seja, pode ser reutilizada 15 vezes. Já as garrafas de vidro têm 35 idas e voltas. Porém, estas embalagens usam muita água para serem lavadas, além do calor, que consome muita energia. Então, preciso diminuir este impacto e ser mais eficiente no uso destes recursos. O PET é o segundo material mais coletado e reciclado depois do alumínio e é o plástico mais circular que existe. A Coca-Cola trabalha com vários tipos de embalagem: 98% do nosso vidro é retornado e o alumínio já é 100%. É seis vezes mais barato reciclar alumínio em vez de produzir um novo. Já o PET virgem é muito mais barato que o PET reciclado, coisa de 50%. Mas seguimos investindo na reciclagem do PET porque temos compromissos. Para isso, apostamos na redução do uso da água em todo o processo.
Ecoa: Não basta a indústria usar menos água, é preciso também devolver esta água para a natureza.
Rodrigo Brito: Sem dúvida. Por isso que temos ações de reposição hídrica, com programas de conservação e reflorestamento na mesma bacia. Calculamos, com auditoria externa, quanto as áreas preservadas absorveram de chuva, vegetação etc. Neste pilar de proteção de bacias e reposição contamos com uma tecnologia vinda de Córdoba chamada Kilimo, que usa imagens de satélite para promover o uso eficiente da água na agricultura. Os agricultores chegam a economizar 50% de água com este sistema e eles recebem créditos por esta economia. Investimos neste ponto porque a agricultura é quem consome 64% da água do Brasil e 80% da água no Chile. Dentro do monitoramento por satélites também investimos em uma tecnologia brasileira chamada Suidara, que previne incêndios e assim protege bacias. No ano passado, o equivalente a 8 mil estádios de futebol deixaram de ser devastados graças a esta solução. Ao evitar o fogo, estamos preservando a água no solo. No fim, tudo termina no mesmo lugar: na água.