- 1947 - Belmonte, caricaturista, cartunista e ilustrador brasileiro que participou da Semana da Arte Moderna (n. 1896)
Belmonte foi o criador da personagem "Juca Pato": careca "por tanto
levar na cabeça", cujo lema era "podia ser pior", e que encarnava as
aspirações e frustrações da classe média Paulistana. Inconformado, sintetizava a figura do homem comum, trabalhador, honesto, acossado pela burocracia, pelo aumento do custo de vida e pela corrupção. Numa época pré-merchandising, Juca Pato estampou carteiras de cigarros, cadernos escolares, balas, água sanitária, marchinhas de carnaval, além do bar Juca Pato, ponto de encontro de intelectuais e artistas.
Nessa época, Belmonte escreveu e ilustrou sua obra sobre São Paulo dos primeiros séculos: 'No tempo dos Bandeirantes".
Em janeiro de 1945, às vésperas da rendição alemã, Joseph Goebbels, em uma das derradeiras transmissões pela Rádio de Berlim, atacava o conteúdo do livro de charges estrangeiro: Certamente, disse Goebbels, o artista foi pago pelos aliados ingleses e norte-americanos.
Além de álbuns de caricatura, escreveu também crônicas e contos humorísticos (Ideias de João Ninguém, 1935) e estudos históricos (No tempo dos Bandeirantes; Brasil de outrora; Costumes da América Latina). Foi um dos melhores ilustradores das obras infantis de Monteiro Lobato.
Belmonte, o Bandeirante da Caricatura
Existem
coisas que só o mundo do humor gráfico pode proporcionar. Muitas vezes
encontramos em velhas revistas, sátiras ilustradas e caricaturas que,
devido às mesmices da política e das artimanhas de seus idealizadores,
parecem-nos atualíssimas. Se o leitor observar atentamente a charge
“Fascinação”, publicada em 1939, na Folha da Manhã,
poderá concluir que o desenho é bem mais recente do que parece. Nesta
obra – desenhada espetacularmente por Belmonte – um dos maiores símbolos
patrióticos americanos aparece junto a uma bela silhueta feminina, bem
ao estilo da época, mostrando a atraente mulher lançando olhares
sedutores ao nada bem intencionado Tio Sam, onde a expressão do Yankee muito nos lembra a figura nada simpática do presidente dos Estados Unidos, George W. Bush.
Foi
assim que o artista imortalizou os acontecimentos da Segunda Guerra
Mundial, registrando de modo eficaz a irresponsabilidade dos poderosos
da época, não tomando partido de quaisquer dos lados envolvidos, mas
denunciando a passividade dos ingleses e a indiferença dos
norte-americanos, frente aquele que todos elegeram como o inimigo
público número um do mundo, Hitler. Ao invés de simplesmente atacar e
ridicularizar a cômica figura do Reich, Belmonte nos mostrou, em
detalhes, o jogo de interesses dos alemães, russos, japoneses,
italianos, ingleses e americanos, que dizimaram milhares de vidas
inocentes. Desta maneira nosso caricaturista montou para a posteridade,
durante dez anos, uma coleção insuperável de desenhos, contando os
acontecimentos de uma guerra tão estúpida quanto inútil.
Autodidata e eclético por natureza, o artista gostava de se expressar por meio das letras e das artes visuais. Disse Belmonte
certa vez ao amigo Armando Pacheco: “O meu espírito irrequieto nunca se
satisfez em produzir apenas caricaturas, ou apenas desenhos. Gosto de
ser caricaturista, desenhista, pintor, escritor, jornalista,
historiador, o que, afinal, se não chega a dar notoriedade em nenhuma
dessas atividades, pelo menos é um bom processo de se distrair de cinco
formas diferentes”. Esta auto crítica alimentou a opinião de Herman
Lima, o maior historiador da caricatura brasileira, que considerava,
talvez influenciado pelo perfeccionismo de J. Carlos, a caricatura
desenvolvida por Belmonte um tanto inconsistente, apesar de reconhecer
qualidades na obra do artista.
No Rio de Janeiro, Belmonte, ainda sob a chancela de B. B. Barreto, publicou pela primeira vez na Revista da Semana, na edição de 23 de agosto de 1915. Mais tarde foi convidado pelo editor de A Careta, Jorge Schmidt, para substituir J. Carlos, quando este transferiu-se para O Malho.
O caricaturista passou então a colaborar com revistas e editoras
cariocas, porém sempre viveu em São Paulo, onde residiu à rua Atibaia,
no bairro de Perdizes.
E foi em Sampa que nasceu a mais popular e bem sucedida criação de Belmonte, o Juca Pato, boneco inspirado na classe média paulistana, criado em 1925, na Folha da Noite (atual Folha de São Paulo),
funcionando assim como uma espécie de porta-voz do povo paulistano,
contra os desmandos políticos, as injustiças sociais e a corrupção. Se
fosse Belmonte um artista dos dias de hoje, poderia usufruir do merchandising
e fazer fortuna com os direitos autorais de Juca Pato, já que na época,
a popularidade do boneco foi tão grande que batizou diversos produtos
como graxa de sapatos, marca de cigarros, caramelos e até um cavalo de
corrida. Porém, o mais significativo “Juca Pato”, foi o bar, no Centro
de São Paulo, que transformou-se num ponto de encontro de artistas do
rádio, do teatro, intelectuais e atletas de futebol.
Seus desenhos ganharam o país e foram publicados também em O Cruzeiro, D. Quixote, Verde e Amarelo, Kosmos, Radium, Vamos Ler, Fon-Fon, além das estrangeiras Rire (França), ABC (Portugal), Caras y Caretas (Argentina), Judge (EUA) e Kladeradtsch (Alemanha). Foi também um atuante ilustrador de obras literárias, desenhando para o acadêmico Viriato Correia, para quem ilustrou os livros Meu Torrão, História do Brasil para Crianças e A Bandeira de Esmeraldas. Para Renato Sêneca Fleury produziu, além da capa, doze belíssimas ilustrações para o livro Santos Dumont,
contando a trajetória do Pai da Aviação, com desenhos caprichosamente
finalizados a bico de pena; e para Monteiro Lobato, de quem foi grande
amigo, ilustrou, entre outras, toda a obra O Sítio do Pica-Pau Amarelo.
Entre uma encomenda e outra, Lobato passou a se corresponder com
Belmonte, comentando por meio de cartas, os desmandos políticos da época
e fazendo previsões não muito otimistas sobre o futuro político do
Brasil. Numa destas cartas, posteriormente cedidas por sua filha Laís
Barreto, e publicadas pela Folha de São Paulo,
em julho de 1972, o criador de Emília, Narizinho e Visconde, comentou
sobre a cultura da impunidade já enraizada no país, e num tom quase
profético quanto realista escreveu: “Teu lápis amargo terá muito que
escalpelar, mas o triste é que escalpelará em vão. A caricatura entre
nós não corrige, como não corrige a sátira literária, como não corrige a
cadeia”.
E Belmonte
escalpelou mesmo. Incomodou Getúlio Vargas e seu Estado Novo, denunciou
as injustiças sociais que começavam aparecer timidamente e abriu
definitivamente os caminhos percorridos por Voltolino,
para futuras gerações de grandes caricaturistas. Faleceu em São Paulo,
no Hospital São Lucas, na madrugada de 19 de abril de 1947, pouco antes
de completar 50 anos, vítima de tuberculose. Deixou
viúva Francisca Cardoso Bastos Barreto, com quem teve uma filha chamada
Laís. Morreu pobre, deixando como herança, além da sua bela e extensa
obra, seu idealismo e a paixão por São Paulo.
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