Nada indicava um match entre Donald Trump e as big techs. Ele terminou sua primeira passagem pela Casa Branca banido de Twitter (atual X), YouTube, Facebook e Instagram. Para estar nas redes sociais, criou a Truth Social. O retorno às grandes plataformas até ocorreu, mas só para lançar a campanha de 2024, já que ele transferiu sua presença virtual para o próprio site, que hoje é o canal extraoficial da presidência dos Estados Unidos. Nada, porém, simbolizou mais sua antipatia por essas empresas do que ameaçar de prisão o CEO de uma delas, Mark Zuckerberg, da Meta. No entanto, algo mudou. E, de conturbada, a relação passou a ser simbiótica. Muito já se falou dos afagos destinados a Trump, mas faltava um número. Não falta mais. As big techs gastaram R$ 3,184 bilhões (US$ 643 milhões) para apoiar Donald Trump e o Partido Republicano, segundo novo relatório da Public Citizen. A organização por trás do documento é uma ONG norte-americana que se dedica ao direito do consumidor e se debruça em assuntos como ética no governo a comércio justo. O montante, calculado pelo pesquisador Rick Claypool a partir de dados públicos e compreende dinheiro desembolsado por Amazon, Apple, Google, Meta, Microsoft, Nvidia, OpenAI, Oracle, Palantir, SpaceX, Tesla e X. O dinheiro teve três destinações: - Gastos eleitorais: entre os R$ 2,701 bilhões (US$ 545,5 milhões), há doações para a campanha presidencial de Trump em 2024 ou para candidatos apoiados por ele para o pleito de meio de mandato de 2026. Isso inclui verba para super PACs destinados a apoiar republicanos ou construídos para endossar oponentes da regulação de IA. Nessa raia, Elon Musk, CEO de SpaceX, Tesla e X, nada bem à frente dos demais, com doações somadas de R$ 1,787 bilhão (US$ 361 milhões). O segundo lugar é digno de nota, porque mostra o elo do capital tecnológico a Trump ainda que não venha de uma big tech norte-americana. Jeffrey Yass e sua esposa Janice doaram R$ 574,4 milhões (US$ 116 milhões). Cofundador do fundo Susquehanna International, ele é um notório investidor da chinesa Bytedance, dona do TikTok.
- Doações para a inauguração: esses R$ 173,3 milhões (US$ 35 milhões) foram contribuições para a cerimônia de posse de Trump em janeiro de 2025. O maior cheque, de R$ 9,9 milhões (US$ 2 milhões), foi assinado por Dara Khosrowshahi, CEO da Uber. Essa grana engrossou os R$ 1,2 bilhão (US$ 239 milhões) levantados para a posse, mais do que o dobro do recorde anterior, estabelecido pelo próprio Trump --a título de comparação, Joe Biden arrecadou R$ 307 milhões (US$ 62 milhões).
- Presentes não eleitorais: afagos financeiros informais, ainda que na casa dos milhões somam R$ 361,5 milhões (US$ 73 milhões). São acordos de licenciamento com o estabelecido entre a família Trump e a Amazon para produzir o documentário da primeira-dama, Melania, ao custo de US$ 28 milhões. Mas também incluem acordos para encerrar disputas judiciais, como os R$ 108 milhões (US$ 22 milhões) que a Alphabet, dona de Google e YouTube, topou pagar a Trump por ter suspendido seu canal no YouTube; o dinheiro custeará o salão de festas da Casa Branca.
Para a pesquisadora Andressa Michelotti, especialista em regulação de Big Techs e pesquisadora pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), a interação de empresas de tecnologia o governo dos EUA flutua entre a coexistência e a simbiose ("As big techs não são empresas estatais, mas são muito próximas de Washington."). Se, durante o primeiro mandato de Trump, a relação foi conflituosa, agora, é de uma proximidade gritante. A transformação decorre de três pontos. Entre um mandato e outro de Trump, houve a gestão de Joe Biden. Nela, avançaram diversas iniciativas para exigir maior responsabilidade de plataformas digitais e classificar como anticompetitivas as práticas comerciais das donas desses serviços. Vindo da Casa Branca, o movimento abriu caminho para outros países criarem ou reformarem regras nacionais voltadas a regulamentar as atividades de big techs. Foi o caso da União Europeia (AI Act e a Lei dos Mercados Digitais) e do Brasil (revisão do Marco Civil da Internet e ECA Digital). Outra coisa: as big techs aprenderam a falar a língua de Trump. Elas entenderam como é que se comunica com ele. Apanharam bastante e agora captaram a mensagem: "OK, é assim que a gente atende os nossos interesses se comunicando com esse governo Andressa Michelotti Exemplo disso foram as mudanças no organograma dessas empresas. Na Meta, saiu Tony Blair, ex-primeiro ministro do Reino Unido, e ascendeu o republicano Joe Kaplan ao posto de chefe das relações governamentais. Por último, a inteligência artificial criou um norte comum para governo dos EUA e big techs: bater a China. O valor de US$ 643 milhões é uma cifra conservadora, porque falar a língua de Trump exige demonstrações públicas de apreço difíceis de calcular ou complicadas de atribuir inteiramente à manutenção da relação, nota o pesquisador Rick Claypool. Ainda assim, dá para citar algumas, empresa por empresa: |