Agora vai: parece que os psicodélicos estão cada vez mais perto de se tornarem parte da medicina. A nova pergunta é: será possível obter os benefícios dessas drogas, sem que o paciente precise passar pela "viagem" que elas promovem?
O maior estudo já realizado na área, feito com 267 participantes e mais de 500 sessões de escaneamento cerebral, publicado na revista Nature no início de abril, comprova o que muitos cientistas defendem há décadas: que psilocibina, LSD, DMT e mescalina alteram de forma consistente a conectividade cerebral, especialmente ao aumentar a integração entre áreas sensoriais e cognitivas. "O principal achado é a identificação de uma 'assinatura neural' comum a todos os psicodélicos estudados", explica Stevens Rehen, cientista do IDOR Ciência Pioneira, Promega e Instituto Usona e pesquisador do tema. "Apesar de serem substâncias quimicamente distintas e produzirem experiências subjetivas variadas, todas promoveram um mesmo padrão de alteração cerebral. Em condições normais, algumas redes neurais operam respeitando uma certa hierarquia de processamento. Sob efeito de psicodélicos, essa hierarquia é alterada e as áreas que normalmente se comunicam pouco passam a trocar informação de maneira mais intensa. Como se o cérebro fosse reconfigurado."
O New York Times destaca que isso pode ajudar a explicar os mecanismos neurológicos por trás das "viagens": distorções sensoriais, experiências místicas e a chamada "dissolução do ego" relatadas por pacientes durante as sessões. Para Manesh Girn, neurocientista da University of California, San Francisco, e um dos principais autores do estudo, as substâncias alteram profundamente o modo como o cérebro processa informações e se relaciona com o mundo. Segundo ele, elas podem promover mudanças terapêuticas ao "tirar as pessoas de padrões rígidos e de formas habituais de perceber e se relacionar com a realidade". As descobertas abrem novas possibilidades para o tratamento com essas drogas, da depressão, ansiedade, transtornos por uso de substâncias e algumas doenças neurodegenerativas - o que, vale lembrar, já é liberado em alguns países.
A corrida do ouro da indústria farmacêutica agora é desenvolver medicamentos que tragam benefícios terapêuticos, sem que o paciente precise viver a experiência psicodélica, o que pode ser precioso para muitas empresas - sem a "viagem", saem da frente o medo e o preconceito comumente ligados ao uso de drogas psicodélicas, e entram na jogada o ganho de escala, o uso ambulatorial e, mais importante, a aceitação dos planos de saúde. Mas, claro, há controvérsias.
David Olson, pesquisador da University of California, co-fundador da empresa Delix Therapeutics, defende, em entrevista à New Yorker que é possível remover os efeitos psicodélicos sem perder os benefícios terapêuticos. Seu colega Robin Carhart-Harris, também da University of California, discorda: para ele, a "viagem" é justamente a sensação subjetiva desse processo - e, sem ela, o cérebro poderia permanecer preso aos mesmos padrões.
Ele não está sozinho: uma revisão publicada em 2022, que reuniu dados de 12 estudos clínicos, identificou uma correlação significativa entre as "viagens" e melhorias na saúde mental. Mas os autores ressaltam limitações importantes, como o tamanho reduzido das amostras e a presença de possíveis vieses nos estudos analisados. "Os ensaios clínicos com psicodélicos não conseguem separar claramente o efeito farmacológico da experiência propriamente dita", comenta Stevens. "Qualquer afirmação de que compostos não-psicodélicos seriam terapeuticamente equivalentes ainda é prematura."
Para a indústria farmacêutica, as "viagens" saírem do mapa é um grande negócio: uma análise publicada na Nature Biotechnology estimou que o mercado dos neuroplastógenos, como são chamados os medicamentos capazes de promover a neuroplasticidade do cérebro, pode alcançar quase US$ 7 bilhões até 2030.
A depender das cifras, os estudos não devem parar por aqui. (Colaborou: Lígia Nogueira) |