Na era da "betificação", o jogo do tigrinho está rapidamente ficando para trás. Explico: o mercado de previsões está se solidificando como uma nova camada na produção de informações, remodelando o mercado financeiro - e, consequentemente, o jornalismo também. Você provavelmente deve ter ouvido falar no mercado de previsões quando, no final do ano passado, a ex-bailarina brasileira Luana Lopes Lara ficou famosa ao se tornar a bilionária self-made mais jovem do mundo, aos 29 anos. Ela é fundadora da Kalshi, uma plataforma baseada em apostas sobre eventos futuros avaliada em US$ 11 bilhões e uma das principais players neste mercado. Mas não é só ela. Aliás, a concorrência é cada vez maior. Só para dar uma ideia, segundo um relatório conjunto das empresas Keyrock e Dune Analytics publicado pela "Forbes", as plataformas Kalshi, Polymarket, Crypto.com, MYRIAD, Limitless e Opinion movimentaram cerca de US$ 44 bilhões ao longo de 2025. E há previsões de que, juntas, possam atingir US$ 1 trilhão em volume de negociações até 2030. Elas operam como uma espécie de "bolsa de valores das tendências", onde tudo pode ser monetizado: qualquer um pode criar uma aposta - que vão dos próximos ganhadores de eventos esportivos à volta de Jesus Cristo e até a morte de líderes políticos (sim, você leu certo) - e lucrar com isso. A diferença em relação às bets é que, aqui, usuários apostam contra outros usuários, e não contra a empresa, que ganha apenas um valor em cima das transações. Acontece que tem tanta gente apostando que o mercado passou a usar os resultados para "prever o futuro", levando em consideração aquilo que é chamado de "sabedoria das massas". Mas, atenção: além das massas, alguém que tenha informações privilegiadas sobre algum movimento pode abrir uma aposta - e ganhar muito dinheiro, em pouquíssimo tempo, a partir de uma hipótese de futuro que já era real, mas só aquela pessoa sabia. Exemplos práticos: mês passado, a secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, encerrou de repente uma conferência com jornalistas exatamente aos 64 minutos e 40 segundos. Em uma destas plataformas, havia uma aposta de que a conferência de imprensa duraria menos do que 65 minutos. No momento da interrupção, as apostas pela probabilidade de ultrapassar os 65 minutos era de 98%. Como escreveu Ronaldo Lemos em sua coluna na Folha de S. Paulo, houve acusações de que a secretária agiu de propósito, sabendo das apostas. Senadores começaram a debater se agentes públicos não estariam enriquecendo a si e a seus conhecidos por meio dos mercados de apostas. Segundo uma reportagem do "The Wall Street Journal" publicada em 8 de abril, três contas na plataforma Polymarket lucraram mais de US$ 600 mil ao apostar corretamente em um cessar-fogo envolvendo o Irã. Elas fizeram apostas consistentes ao longo do período que antecedeu o acordo. As três contas fazem parte de um mesmo grupo e já haviam obtido lucros anteriores relevantes - o histórico de acertos indica que esses traders podem ter acesso a informações privilegiadas. Tem até gente fazendo disso uma nova profissão em tempo integral: o "New York Times" compara os "apostadores de previsões" com os traders de Wall Street nos anos 1980, os fundadores de startups na bolha da internet nos anos 1990 e os influenciadores nos anos 2010. O maior problema é quando as "máquinas de previsão" são apresentadas como uma forma inovadora de fornecer probabilidades confiáveis. Nos Estados Unidos, grandes veículos de mídia, como "The Wall Street Journal", CNN e CNBC, já integraram as probabilidades desses mercados à cobertura jornalística. O perigo: ao reagirem mais rápido do que instituições democráticas, os resultados das apostas estabelecem narrativas antes que haja tempo de debate ou contestação. O resultado? O mercado começa a se movimentar a partir das previsões, fazendo com que o fato, até então virtual, seja aceito e consumado off-line também. Resumindo: a previsão do futuro vira futuro por causa das apostas na previsão daquele futuro. Isso deveria se chamar "mercado de atropelamento de futuros". Spoiler: a probabilidade de Cristo voltar antes de 2027 é de 4%. (Colaborou: Lígia Nogueira) |