06 novembro, 2013

VILA DO MARTINHO - TaNToS CarNAVaiS




“VILA DO MARTINHO”


Oriundo da escola de samba Aprendizes da Boca do Mato, Martinho ganhou seu primeiro samba na Vila Isabel em 1967. Com “Carnaval de Ilusões”, o compositor iniciou uma série de conquistas que se estendeu até 1970, tendo alcançado com “Yayá do Cais Dourado”, em 1969, o seu maior sucesso nesse período. Em 1972, Martinho assinou novamente o samba da Vila. “Onde o Brasil Aprendeu a Liberdade” foi sua última composição cantada na Avenida Presidente Vargas. 


Depois de oito anos sem vencer a disputa, Martinho, em parceria com Graúna e Rodolpho, assinou o clássico “Sonho de um Sonho”, samba mágico e poético que impulsionou a Vila em uma de suas melhores exibições e que a fez alcançar um inusitado segundo lugar entre as grandes escolas, já na Rua Marquês de Sapucaí. 


Na inauguração da Passarela do Samba, em 1984, Martinho compôs um dos seus sambas mais emocionantes, para o enredo “Pra Tudo se Acabar na Quarta-Feira”, cuja letra transcrevo abaixo:


A grande paixão
Que foi inspiração do poeta é o enredo
Que emociona a velha-guarda
Lá na comissão de frente
Como a diretoria.

Glória a quem trabalha o ano inteiro
Em mutirão
São escultores, são pintores, bordadeiras,
São carpinteiros, vidraceiros, costureiras,
Figurinista, desenhista e artesão
Gente empenhada em construir a ilusão...

E que tem sonhos 
Como a velha baiana
Que foi passista,
Brincou em ala,
Dizem que foi o grande amor de um mestre-sala.

O sambista é um artista
E o nosso tom é o diretor de harmonia
Os foliões são embalados
Pelo pessoal da bateria
Sonhos de rei, de pirata e jardineira
Pra tudo se acabar na quarta-feira...

Mas a quaresma lá no morro é colorida
Com fantasias já usadas na avenida,
Que são cortinas, que são bandeiras
Razões pra vida tão real da quarta-feira.
É por isso que eu canto...


E veio o ano de 1987. Com “Raízes”, o compositor voltou a revolucionar o gênero samba-enredo ao conceber, em parceria com Ovídio Bessa e Azo, uma obra sem rimas, mas cheia de poesia. No ano seguinte, Martinho não foi o autor do samba, mas o enredo campeão “Kizomba, a Festa da Raça” foi de sua autoria e inspirado em um evento anual promovido por ele mesmo. 


Dezessete anos depois de sua última composição vitoriosa na Vila (“Gbala, Viagem ao Templo da Criação”, de 1993), Martinho voltou a ter um samba de sua autoria cantado no Carnaval de 2010. Foi no enredo em homenagem ao centenário de Noel Rosa. A escola não venceu, mas o samba recebeu notas máximas. 


No último Carnaval, a Vila chegou ao seu terceiro grande campeonato e, pela primeira vez, com um samba assinado por Martinho, dessa vez em parceira com Arlindo Cruz, Tunico, Leonel e André Diniz. 


Entre festas nos arraiás e sonhos magnetizados, esperemos que Martinho volte a compor para a Vila e durante muitos anos, afinal muitos de seus sambas comprovam que a beleza é a missão de todo artista e que nem tudo se acaba na quarta-feira. 



Marcelo Guireli
TaNToS CarNAVaiS



* Foto original de Fernando Maia (O Globo), mostrando Martinho em meio ao desfile da Vila, em 1987.


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