É quase impossível navegar pelas redes sociais e não se deparar com alguma tira de arrancar sorrisos do argentino Liniers. Com a série Macanudo, ele caiu no gosto dos brasileiros pelos idos dos anos 2000, e apesar de bastante conhecido na internet, o quadrinista só foi editado no país em 2008 quando a editora Zarabatanadeu conta de trazer os divertidos personagens da série argentina para o país.
A história dos quadrinhos na Argentina - ou ainda comics, tebeos ou apenashistorietas - teve uma trajetória parecida com a nossa no Brasil, começando ainda no século XIX, passando pelas charges, cartuns e chegando nos quadrinhos do século XX. Entre a transição dos séculos, apesar da pressão para copiar o estilo clássico de Comics americana, os argentinos já pendiam pela característica que iria ser fundamental nos seus quadrinhos: o cunho político e crítico, exposto com altas doses de criatividade.
Desde o principio não foi fácil para os quadrinistas argentinos se livrarem da enxurrada de material estrangeiro que marcava presença nos períodicos do país. Além de comandarem o mercado, muitos editores exigiam que os argentinos fizessem trabalhos parecidos com os de fora, mas eles não traziam a realidade dos leitores, entretinham mas não figuravam no cotidiano. Foi nesse momento que alguns quadrinistas rompem com editores para criar personagens que dialogassem mais de perto com o público nacional, criando assim uma identidade.
Para quem conhece os 3 M’s dos quadrinhos hermanos sabe que a crítica pode estar branda no discurso, mas sempre está presente. Mafalda, Macanudo eMulheres Alteradas possuem seus estilos próprios e conquistaram território alémmar del plata justamente por serem marcados por suas próprias críticas. Mafalda, ironicamente, surgiu da necessidade de uma marca de geladeiras propagar o seu nome. O quadrinista Quino criou ela e sua família com cunho publicitário, mas a personagem era tão livre que foi ganhando forma e acabou virando referência nacional, com críticas ferrenhas à tudo que acontecia no país. Mafalda, com sua aversão à sopa e opiniões na ponta da língua, se tornou símbolo do país e inclusive ganhou uma estátua na cidade em 2009.
Os kioscos - como são chamados as bancas de jornais na Argentina - sempre foram responsáveis em divulgar a cena de HQs do país. Ao desembarcar no aeroporto da capital portenha, o visual da cidade é acompanhado por Mafalda, pelos personagens de Liniers, pela explosão das mulheres alteradas de Maitena ou a vasta gama de personagens que surgiram nos principais periodícos ou zines do país.
Os jornais argentinos, no fim dos anos 80, foram os responsáveis pela massiva nacionalização dos quadrinhos. Mesmo que isso tenha acontecido por questões econômicas, a situação foi fundamental para os quadrinistas argentinos sairem de seu anonimato e começassem a ter vez no circuito. Mas vale ressaltar que os zines e revistas foram fundamentais para que a arte circulasse, inclusive fora do país. Como não mencionar a excelente revista Fierro, conhecida no mundo todo por trazer o melhor do trabalho independente argentino?
Liniers por exemplo, começou publicando em várias revistas independentes, criando a sua própria identidade. Os famosos pinguins sempre estiveram presentes enquanto ele ia agregando outros personagens ao seu mundo fantástico e sensível. Interessante notar que ele sempre se fez presente nos seus desenhos, primeiro como um homenzinho de nariz vermelho - uma das características do seus personagens humanos - e mais tarde como o coelho de óculos que hoje é a sua marca.
Foi Maitena Burundarena a responsável para Liniers entrar no circuito das tiras de períodicos. Desde 1992 a quadrinista publicava suas tiras - que viraram sinônimo de quadrinhos feministas - na revista argentina Para Tí. Antes de Mulheres Alteradas, Maitena fazia trabalhos diversos nos quadrinhos, principalmente no eixo erótico. Mas seu lado crítico falou mais alto e ela passou a retratar o universo feminino e as diferenças cotidianas com o convívio masculino. Recentemente, a quadrinista veio ao Brasil e disse não ter mais interesse em fazer quadrinhos e lançou um romance elogiado chamadoSegredos de Menina (editora Benvirá) em que relaciona a ditadura na Argentina e o universo de uma garota de 12 anos.
Mas claro que os quadrinhos argentinos vão bem além dos famosos 3M’s. Sempre existiram trabalhos independentes de intercâmbio entre Brasil e Argentina e algumas editoras - como a Zarabatana e a Martins Fontes - tem se esforçado em trazer mais opções ao leitor brasileiro. Só para instigar o leitor com um exemplo, em 2011 a Martins Fontes trouxe a primeira edição de um dos quadrinhos mais importantes da cena argentina. O Eternauta chegou ao Brasil 50 anos depois e traz uma ficção científica sensacional sobre um homem que encontra a si mesmo do futuro, para Phlip K. Dick nenhum botar defeito. Muitas referências políticas e críticas sociais são encontradas no roteiro de Héctor German Oesterheld e nos ótimos desenhos deSolano López e isso há pelo menos cinco décadas atrás. E vale mencionar que Oesterheld era ativista político e desapareceu - assim como toda sua família - durante a ditadura argentina.
No livro Bienvenido - Um passeio pelos quadrinhos argentinos (Zarabatana, 2010), o pesquisador Paulo Ramos enumera dois grandes motivos para que os quadrinhos argentinos não cheguem em tanta quantidade por aqui: A possível dificuldade do humor, a transposição das piadas para a nossa cultura e a ainda massiva presença dos americanos no mercado. Esperamos que essa situação continue contornando e que haja a presença de todos, afinal quadrinhos nunca são demais.
Na Internet você pode encontrar facilmente trabalhos excelentes de alguns quadrinistas argentinos. Abaixo, alguns ótimos exemplos:
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