06 novembro, 2013

A história de um homem condenado a ser livre by Francisco Zaidan via Valeria Zez



Valeria Zez compartilhou um link.

Guria tem noção como chorei lendo essa homenagem do meu filho para o pai ?? Ele descreveu como poucos que é Claudio Zaidan !!! Bom dia bjos


Cláudio optou pela vida parca, pelo português correto, crítica cordata, respeito pelas fraquezas privadas, depender exclusivamente de seu conhecimento, um comportamento low- profile




Toda homenagem contém em sua natureza um receio indisfarçado, o do esquecimento. Por isso a tendência de ser póstuma, com o tempo a morte torna-se uma brisa delicada para os que ficam, é necessário exercitar a saudade, sem exageros, mas também sem jamais ignorá-la, a lembrança é uma honraria sem cerimônias, gracioso respeito e espontâneo reviver. Nossa mente tem a maravilhosa capacidade de filtrar a enxurrada de emoções que causam o luto, para logo a sensação de tempestade ser dissipada na forma de melancolia, resignação, saudade. Diferente do dito popular, não é a obra do falecido que fica, não valeria o labor que é viver se o suor fosse o elemento perpetuador e não a curva do queixo, o cheiro que fica na roupa esquecida do armário empoeirado, o choro desesperado e inesperado pela dor de cotovelo, a mesa onde se sentava no canto da sala, as brigas mesquinhas, emotivas e sem nexo com a mulher amorosamente histérica, detalhes que nem imaginamos sermos capazes de rememorar, lembranças borradas, nem dolorosas e nem agradáveis, só uma brisa a lembrar que existe o vento e talvez o ente querido, novo morador de onde veio o vento. Recomendo o poema “Os mortos” de Ferreira Gullar, em determinado momento ele diz: “Ausentes de corpo e alma, misturam o seu ao nosso riso, se de fato quando vivos acharam a mesma graça”. 


O ideal é quando a homenagem tem um caráter impessoal e despretensioso, existindo como pura gratidão e reconhecimento por parte de uma pessoa, instituição ou estrato social preocupado em honrar a memória de alguém. Mas como tarda a honraria, farei eu, “maculado” nepótico por ser da estirpe (genética, fisionômica, jamais moral e intelectual), em versos maltrapilhos e agridoces, tal devido registro. Conheci um homem que, como ninguém, encarnou traços aparentemente excludentes, vistos como inconciliáveis: a rudeza e a elegância, a simplicidade e o refinamento, a retidão moral e a capacidade de entender silenciosamente quem não a tem tão apurada, a erudição e a preferência pela companhia dos “iletrados”, o extremo profissionalismo e a apatia desinteressada pelo “business” canibalesco das grandes empresas, a unanimidade quanto a seu talento e a ausência de frutos materiais e sociais que o mesmo poderia gerar. Esse homem é meu pai, Claudio Zaidan. Um homem sem paralelos, maltrapilho nas vestimentas, nobre na honradez e discrição, genial pela dádiva lhe concedida.



Admito que esse homem foi e é tão especial para mim, que suas qualidades com o tempo se me tornaram uma nuvem negra perturbadora ao, minuto após minuto, erro após erro, me acompanhar e lembrar de onde vim. Essa jamais foi sua intenção, mas expectativas brotam como pragas daninhas semeadas por admiradores do outro e ressentidos pela imagem assustadora refletida pela vidraça trincada. Sentia-me como o celebrado e trêmulo futuro rei da dinastia que em seu intimo tem convicção que jamais terá a postura majestosa e ilibada de seu pai; há algo de podre na sucessão do reino dinamarquês. Assim como é bem-aventurança e opressão ser filho de um gênio, assim o é dobrado ser filho de um homem genial e de comportamento tão íntegro e irreparável; ao mesmo tempo em que sente orgulho pelo seu pai, sente vergonha e culpa por não ser como ele. Estava lendo a carta que Kafka escreveu a seu pai, ele explica o distanciamento dos dois pela austeridade, frieza e desamparo emocional por parte de seu pai, um homem honesto, mas não afeito a demonstrações de carinho e amor. De certo modo é reconfortante ter alguém para culpar, queria eu agora dizer que fracassei por ausência disso ou daquilo. Mas não, pelo menos nesse ponto fui soberano e caminhei por minhas próprias pernas, estraguei as coisas por minha incapacidade e inabilidade, não há terceiros para apontar como responsáveis. 
       
Homens muito sistemáticos e inflexíveis quanto à conduta ética e moral a nortear sua vida e de seus descendentes, tendem a pecar pela união da excessiva rigidez e do precário dengo. Cláudio não, como ninguém ele soube ser doce e zeloso, justo, mas não implacável. Mas ser excessivamente bom é tão escandaloso e incômodo como ser um crápula. E Cláudio tirou muitos colegas e chefes da zona de conforto, no começo tratavam suas idiossincrasias morais como algo folclórico, um capricho interiorano que logo seria atropelado pela realidade impositiva da vida e imprensa atual. Mas não, o tempo só “agravou” suas manias e convicções. Cláudio é uma rocha, impenetrável em seu pessoalíssimo li e jen; Isso não o transforma em uma figura superior, mística. Eis o entrave sem conclave que o resolva, não se trata de um misantropo desiludido com a humanidade, nem de um moralista ilhado entre semelhantes de fé; trata-se de um homem que vive em São Paulo, trabalha em uma mega empresa de comunicação e de 15 em 15 dias visita sua família no Triângulo mineiro. Trivial, não? Não, Cláudio e o mundo, em plena São Paulo, são dois estranhos que se afirmam no exagero. A cidade tresloucada, assustadora, arrebatadora e traiçoeira até aos mais precavidos, do outro lado (ou melhor, no epicentro da gigante paulicéia) um sujeito, caboclo, avesso à palavra jorrada pelo esplâncnico, avesso aos sons incontroláveis que crescem como plânctons super reprodutores, avesso as surpresa e incógnitas, Cláudio é um exagero, uma estrada reta, sem curvas, sem distrações, sem buracos, uma estrada com um único destino certo, onde o único andarilho que ousa enfrentá-la é incompreensivelmente bem-resolvido, uma estrada tediosa, mas que a cada quilômetro percorrido presenteia o esparso “perdido” com um silêncio redentor, tudo agora faz sentido. 
       
Cláudio enterrará consigo um estilo de vida, ninguém mais ousará, como ele ousou, mesmo sendo absolutamente intelectual e acima da média, ser um homem e um jornalista solitário, sem ambições de furo, sem matérias bombásticas, sem participar de confrarias e patotas, contrário aos merchandisings (não que repudia quem assim faz, mas não é de sua natureza, mesmo sabendo que tal decisão implique em uma considerável queda no padrão de vida seu e de sua família), sem livros periodicamente lançados e nem cogitado para entrevistas no Jô ou Roda Viva. Cláudio optou pelo respeito à figura humana, pelo talento sem abraços e congratulações que lustram o ego de seus superiores, Cláudio optou pela vida parca, pelo português correto, crítica cordata, respeito pelas fraquezas privadas, depender exclusivamente de seu conhecimento, um comportamento low- profile. 
       
Esse senhor, meu pai, não receberá de mim palavras solenes, pomposas, nem ouvirá um clamor desesperado de seu filho para que o sistema o incorpore com gratificações a sua altura (isso o envergonharia). Só quero gritar alertando de um erro interpretativo que a figura incomum do meu pai tem fomentado. Tratam-no como um celibatário que mortificou as ambições que movem o homem secular, sendo a moral absoluta seu castiçal, e sua fé o cinto de castidade. Juvenil engano, não peço que o imitem (também nunca fui capaz para tal), mas sejamos sinceros, estamos diante um homem libertário, corajoso, desafiador, indiferente às convenções, incapaz de bajular, de educação incondicional, propenso a ser mais um mesmo sendo sui generis. 
       

Cláudio não tem carro, locomove-se nos subterrâneos, nos metrôs. E disse Paul Simon: “As palavras dos profetas estão escritas nas paredes dos metrôs e nos corredores dos conjuntos habitacionais”.





Cláudio Zaidan -


Bom humor!

Sério, mas sempre de bom humor. Essas são duas das características de Cláudio Zaidan. 

Crédito da foto: Ednilson Valia