22 novembro, 2012

Histórias dos Quadrinhos que Não Estão Nos Gibis: A Morte do Grilo

 
O jornalista e escritor baiano Gonçalo Junior tem uma prolífica e considerável bibliografia, da qual eu li poucos livros, infelizmente, a maioria normalmente voltada a pesquisa na área editorial ou de quadrinhos, sendo sua obra mais conhecida o ótimo “A Guerra dos Gibis”, cuja sequência é “Maria Erótica e o Clamor do Sexo”, ambos já comentados nessa blodega.
 
Pessoalmente eu o coloco juntamente com o Ruy Castro e o Fernando Morais como meus autores preferidos de não-ficção, já que os três conseguem, em cima do tema proposto, não se limitar a ele, contextualizando o assunto de forma ampla, mantendo o rigor jornalístico sem ser enfadonho, ao contrário, envolvendo o leitor em histórias fascinantes reveladas após bastante pesquisa e entrevistas. E no caso de Gonçalo Jr, nesses livros que eu mencionei, mesmo que não sejam exatamente o tema central, ele costuma escolher um ou mais personagens e usar a sua vida como fio condutor da narrativa.
 
Dito isso, vamos ao que interessa. Em fins de outubro, por acaso me deparo em uma visita a Comix o novo livro desse autor, intitulado “A Morte do Grilo”, na qual recupera a história da revista pioneira que lançou diversos autores americanos do underground e obras europeias voltadas ao público adulto, até então inéditas aqui no Brasil. Porém, mais do que uma revista em quadrinhos de vanguarda, a “Grilo” representava um ponto de resistência ao então vigente regime militar e a sua censura e truculência.
Um assunto que, se restrito a história da revista que durou 48 números lançados entre 1971 e 1973, renderia, se muito, uma boa matéria, quando bem explorada em suas nuances acaba gerando material suficiente para um livro. Para inserir o leitor no cenário adequado para que compreendesse a amplitude e importância da revista e de seus responsáveis, Gonçalo Jr faz exatamente o que descrevi algumas linhas acima. Por isso, a título de introdução, o autor resgata a história dos pais do jornalista Sérgio de Souza, que remonta ao início do século XX, e sua trajetória pessoal e profissional, quando deixa a segurança de um emprego no Banco do Brasil para se aventurar no jornalismo, caminho esse que o coloca na lendária revista “Realidade”, da editora Abril, junto com uma equipe de jornalista jamais reunida que deu uma identidade ousada a revista, porém essa ousadia e independência acabou desagradando os donos da editora e a censura em vigor. Fora da Abril, a lendária equipe – que se demitiu em massa em solidariedade a um colega – preferiu se manter unida, mas naqueles tempos bicudos, nenhuma grande editora quis ter aquele “bando de comunas” trabalhando para eles. Portanto foi que eles acabaram criando uma editora – a A&C – para lançar seu estilo militante e engajado em futuras publicações, incluindo a revista “Grilo”, que se propôs a lançar quadrinhos voltados ao público adulto, que já fazia sucesso entre os iniciados que tinham acesso ao material original importado. Portanto, em bom português, saíram pela “Grilo” algumas tirinhas dos “syndicates” americanos (Peanuts, Tumbleweeds), mas também os quadrinhos underground de Robert Crumb e as sensuais heroínas europeias Valentina e Paulette.
Mais do que listar as publicações lançadas na revista ou os bastidores para negociar o licenciamento de personagens ou o pagamento de dívidas junto a gráficas, Gonçalo volta ao espinhoso tema que já foi assunto no “Maria Erótica”: a censura durante o regime militar e as engrenagens da repressão a imprensa. Além do material publicado na revista ser potencialmente classificado como “atentatório à moral e aos bons costumes”, os jornalistas por trás da empreitada também atraíram a atenção dos órgãos de repressão, já que muitos estavam engajados na luta contra o sistema, inclusive apoiando a luta armada. E não tardou para que a editora fosse perseguida e financeiramente asfixiada, uma forma deliberada para se calar a voz das pequenas publicações e um expediente comum naqueles tempos. Mas em seus estertores, os jornalistas ainda lançariam por sua editora a provocativa “Ex” (referência a “Ex-Grilo”), que teve a honra de ser a primeira publicação a lançar uma matéria denunciando a farsa em torno do suposto suicídio do jornalista Vladimir Herzog.
Não obstante a perseguição que deu fim a editora, a turma reunida na revista “Realidade” ainda continuaria a incomodar o status quo vigente em outras editoras nos anos seguintes. O próprio Sérgio de Souza não desistiria, e nos anos 90 fundaria a revista “Caros Amigos”, que em seu bojo trazia ainda o mesmo espírito oriundo daqueles tempos, desta vez para fazer frente ao rolo compressor do neoliberalismo dos anos FHC, e ainda conseguindo reunir aqueles companheiros que ainda permaneciam vivos e atuantes.
Portanto, fica a dica desse livro, que deve interessar não só aos fãs dos quadrinhos, mas a todos que queiram conhecer uma parte importante da história recente de nossa imprensa.
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Subject: Papo de Blodega - Aqui Até a Conversa é Fiada
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