
Academia enfrenta desafio de se adaptar a demandas geradas pelo crescimento do número de estudantes com autismo
Pesquisadores e graduandos com Transtorno do Espectro Autista (TEA) relatam suas vivências na Unesp; na graduação da Universidade, há 403 alunos autodeclarados com TEA, o que representa 1,15% de todos os matriculados
Desde 2007, por decisão da Assembleia Geral da ONU, celebra-se em 2 de abril o Dia Mundial de Conscientização do Autismo. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), a população global que se insere no Transtorno do Espectro Autista (TEA) alcança cerca de 70 milhões de pessoas. No Brasil, o total de pessoas com diagnóstico de TEA é de 2,4 milhões, ou 1,2% da população, segundo dados coletados pelo IBGE no Censo Demográfico de 2022.
Em 2008, entrou em vigor no Brasil a Convenção dos Direitos das Pessoas com Deficiência, com status de emenda constitucional. A nova legislação inseriu, no texto da Constituição, a condenação à discriminação contra indivíduos PCDs e o reconhecimento à sua diversidade. A Convenção, porém, não incluía os indivíduos com TEA. Estes só passaram a ser reconhecidos como pessoas com deficiência no Brasil em 2012. A Lei 12.764/2012, conhecida como Lei Berenice Piana, propôs diretrizes para a maior participação social da pessoa com TEA, garantindo o acesso ao trabalho, à proteção social e à educação.
Naquele ano, o ensino superior do país registrava apenas 244 matrículas de estudantes com TEA. Em 2024, o número já alcançava 15.941, contabilizando os inscritos em cursos presenciais e a distância. Na graduação da Unesp há 403 alunos autodeclarados com TEA, o que representa 1,15% de todos os matriculados. Na Pós-Graduação há 20 pesquisadores, que representam 0,16% do total de inscritos.
A física Anne Kétri Pasquinelli da Fonseca, de 25 anos, é um dos pós-graduandos com TEA na Unesp. Doutoranda em física pelo Instituto de Geociências e Ciências Exatas (IGCE), em Rio Claro, ela ingressou na graduação em física na Unesp em 2018 e desde então vem construindo sua trajetória científica dentro da Universidade.
Suas pesquisas na área de Caos e Sistemas Dinâmicos analisam as mudanças de fase em sistemas bilhares, campo de estudo na física de partículas, e buscam compreender de que forma os sistemas podem transitar de um comportamento mais estável para um regime caótico. A título de comparação, é como se as partículas fossem bolinhas coloridas de bilhar, e Fonseca investiga o comportamento destes objetos ao colidirem com as “bordas da mesa de sinuca”.
Em 2026, a pesquisa da cientista foi selecionada pelo edital Doctoral Dissertation Research Award, do Programa Fulbright, e Anne Kétri irá para a Universidade da Dakota do Norte, nos Estados Unidos, aprofundar os estudos.
Embora recebesse acompanhamento psiquiátrico e psicológico desde os 14 anos, a pesquisadora unespiana só obteve o laudo de TEA aos 22 anos, quando já estava no final da graduação. A pesquisadora foi enquadrada como pessoa com TEA nível 1, com menor necessidade de suporte. O entendimento sobre a condição, no entanto, é de extrema importância para que haja a compreensão de alguns eventos individuais.
“O universo acadêmico, assim como os demais ambientes, presume que, com o avanço da idade, você já saiba como agir e falar em certas situações”, diz Anne Kétri. “Mas enfrento muitas dificuldades com coisas que, às vezes, parecem que são parte do senso comum. Consigo fazer tudo que me pedem. Mas as instruções e a comunicação precisam ser claras”, explica a pesquisadora.
Para explicar a importância destas instruções, a física teórica usa como exemplo uma hipotética tarefa de organizar uma estante. Na ausência de orientações claras, são muitas as possibilidades de arrumação: por cores, pelos tamanhos ou pelas datas de publicação. Pessoalmente, ela pensa que o mais lógico seria uma organização baseada no sobrenome dos autores. Mas basta a possibilidade de que ocorra algum erro no processo de organização para gerar tensão e ansiedade nas pessoas com TEA. Daí a importância de prover instruções claras para assegurar o bem-estar destes indivíduos. Esta necessidade, porém, muitas vezes é taxada de frescura, e simplesmente ignorada.
Ao comparar o quadro que viveu durante seu período na graduação com o momento atual de estudante na pós-graduação, Anne Kétri relata melhorias. “Com o surgimento das diretorias de acessibilidade e inclusão vão aparecendo oportunidades para solicitar uma monitoria, ou outras adaptações”, relata. “Antes, parecia não haver essa possibilidade. Era você que tinha que se adaptar, e não a universidade. Mas isso não faz sentido. Pense no caso de uma pessoa que usa cadeira de rodas: a universidade se responsabilizaria por inserir alguma adaptação. No caso do autismo, acho que isso está acontecendo aos poucos.”
Leia a reportagem completa no Jornal da Unesp.
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