Resenha de CD
Título: Oásis de Bethânia
Artista: Maria Bethânia
Gravadora: Biscoito Fino
Cotação: * * * *
@SulinhaSVO
Título: Oásis de Bethânia
Artista: Maria Bethânia
Gravadora: Biscoito Fino
Cotação: * * * *
Oásis de Bethânia é mais um excelente disco de Maria Bethânia em sua profícua fase na gravadora Biscoito Fino. Concebido pela intérprete com o baixista Jorge Helder, o 50º título da discografia de Bethânia é outro mergulho no universo particular da artista. O fato de a maior parte de suas dez faixas ter tido sua criação confiada a um músico específico já distingue Oásis na obra fonográfica de Bethânia sem que o disco deixe de ser essencialmente igual a outros tantos (belos) trabalhos da artista. Talvez porque - enquanto o maestro Jaime Alem sai da linha de frente da produção, tendo somente adornado Fado (Roque Ferreira) com violões e violas caipiras que traduzem o mesmo sentimento melancólico contido na tradicional guitarra portuguesa - permanecem em cena compositores (Jota Velloso, Paulo César Pinheiro, Roque Ferreira) recorrentes no cancioneiro mais recente de Bethânia. A busca por sonoridade mais minimalista - nua, como caracterizou a cantora nas entrevistas concedidas semana passada para promover o disco, nas lojas desde 30 de março de 2012 - resulta, por exemplo, em faixa, Calmaria (Jota Velloso), gravada apenas com os berimbaus de Marcelo Costa e Marco Lobo. A questão crucial de Oásis é que Bethânia já reuniu repertórios mais inspirados em discos anteriores. Ambientada em esfumaçado clima de fim de noite e impregnada de uma nostalgia perceptível inclusive no toque do sax de Marcelo Martins, Casablanca (Roque Ferreira) - canção da lavra mais urbana do profícuo Roque Ferreira - soa bonita, mas sem igualar a beleza de outros temas do compositor baiano. Barulho - outro tema de Roque, cantado por Bethânia ao som do piano de Vítor Gonçalves - ganha registro aquém do feito por Marcia Castro em seu primeiro CD (Pecadinho, 2007). Barulho é, a propósito, o exemplo de que Oásis talvez tivesse alcançado plenamente o céu se, além de buscar sonoridades novas, Bethânia tivesse tido a ousadia de procurar gravar outros compositores - novos ou antigos - até então inéditos em sua voz. Mesmo gravitando em torno do (refinado) universo particular de sua intérprete, o disco surpreende em alguns grandes momentos. Até então jamais associado ao canto de Bethânia, o nostálgico samba Velho Francisco - lançado por seu compositor Chico Buarque em 1987 - ganha interessante citação de Lenda Viva (tema do folclore brasileiro) e o violão percussivo de Lenine, criador da faixa. A gravação de Bethânia tem força e suingue inexistentes no registro do autor. Outro violão - o de Djavan, cujo toque é pessoal e intransferível - valoriza outra grande faixa, Vive, inédita do compositor alagoano, feita especialmente para Maria Bethânia. Próxima de um bolero, a balada é uma das mais bonitas da lavra de Djavan e pode fazer sucesso se for propagada em alguma trilha sonora de novela. Sublime, Lágrima (Cândido das Neves) também se impõe de imediato no disco. Este sucesso do cantor Orlando Silva (1915 - 1978) em 1935 - grafado na época como Lágrimas - ressurge desnudado, sem seu tom melodramático, em gravação minimalista e seresteira que une à voz de Bethânia somente ao bandolim genial de Hamilton de Holanda. Outra Lágrima de tempos idos - a de Sebastião Nunes, Garcia Jr. e Jackson do Pandeiro - é revivida em Oásis como introdução para Calúnia (Marino Pinto e Paulo Soledade - e não Soledane, como está grafado na ficha técnica do encarte), faixa envolta pelas sete cordas do violão de Maurício Carrilho. Bethânia recorre mais uma vez ao repertório de Dalva de Oliveira (1917 - 1972) - cantora que lançou Calúnia em 1951 - e, desta vez, com a intenção de responder aos que a atacaram durante a polêmica sobre o abortado blog O Mundo Precisa de Poesia, projeto virtual de Andrucha Waddington e Hermano Vianna que tinha a adesão da intérprete (em março de 2011, a divulgação de que o projeto obteve autorização do Ministério da Cultura para captar R$ 1,3 milhão gerou ondas de ataques a Bethânia na internet). "Deixe a calúnia de lado / Se de fato és poeta", alfineta através de verso do samba-canção de 1951. E não é só: a resposta mais contundente de Bethânia vem na sequência de Calúnia. "Não mexe comigo / Que eu não ando só", adverte em falsete, no início e no fim de Carta de Amor, samba de Paulo César Pinheiro que serve de cavalo para Bethânia fazer baixar santos e orixás em raivoso texto de sua autoria no qual relaciona a companhia invisível de entidades religiosas. "Eu quero ser redemoinho / Eu quero ser travessia / Eu quero abrir o meu caminho / Ser minha própria estrela-guia", avisa em versos de Salmo (Raphael Rabello e Paulo César Pinheiro), tema rebuscado que o piano de André Mehmari quase transforma numa peça de câmara. E assim, em clima erudito, Maria Bethânia encerra seu Oásis no céu. Com cinco primorosas faixas (Lágrima, O Velho Francisco, Vive, Carta de Amor e Salmo) e outras cinco situadas num nível menor de grandeza, Oásis de Bethânia faz Maria se movimentar sem contudo sair efetivamente de seu lugar (con)sagrado.
Sabedoria, Saúde e Suce$$o: Sempre. 
Sulinha
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