Alex Steinweiss, o inventor da arte de capas de disco
Mês passado me deparei com a notícia da morte daquele que é considerado o inventor do LP, Howard C.Scott. Para os da geração Y que acham que músicas brotam do éter direto para aparelhos eletrônicos desde os tempos das cavernas, tenham a grata surpresa de que nos bons tempos a música gravada precisava necessariamente de um suporte físico, seja ele uma fita magnética ou um disco, nos mais variados tamanhos e formatos ao longo de inúmeras décadas. E um dos mais populares que antecederam o formato digital do CD foram os discos LP (Long Player). E antes do LP, as gravações eram registradas em pesados discos de goma-laca que suportavam pouco menos de quatro minutos de gravação em cada lado, e que giravam a 78 RPM ao serem reproduzidos. Howard C.Scott se tornou famoso por participar da concepção do LP pela Columbia, que criou um sistema de 33 ½ rpm de sulcos finos que comportava bem mais músicas que os velhos 78 rpm, permitindo várias músicas de cada lado do disco, inicialmente de dez polegadas e depois o formato definitivo de 12 polegadas. Descontando o recente reviival dos discos LPs por colecionadores e audiófilos, o que garantiu uma inesperada sobrevivência a um formato tornado obsoleto pelo mundo digital, podemos dizer que Howard C.Scott sobreviveu ao próprio invento, vendo-o nascer, morrer e ser ressuscitado.
E podemos dizer o mesmo de outro pai de uma invenção diretamente associada aos velhos discos bolachões: o inventor das capas de discos, outra arte praticamente morta. Tal paternidade é atribuída ao design Alex Steinweiss, falecido há pouco mais de um ano. Antes dele (e de Howard), as gravações eram nos discos 78 rpm. Para compor uma obra mais vasta de seis ou oito músicas de um mesmo artista (não riam, crianças), as gravadoras reuniam 3 a 4 discos em uma embalagem cartonada na forma de um álbum (daí a origem do termo atribuído as gravações até hoje), porém sem nenhuma arte de capa ou contracapa, no máximo o nome do artista e da gravadora. E no caso dos discos avulsos, a embalagem era um simples envelope com um orifício no meio no qual se visualizava o rótulo do disco. Pode parecer óbvio hoje, mas demorou para o departamento de marketing das gravadoras perceberem que o formato e tamanho de tais capas poderiam servir de suporte para o material gráfico de divulgação do próprio disco.
E tal pioneirismo também é atribuído a gravadora Columbia. E quem primeiro caiu a ficha foi o então jovem diretor de arte da gravadora, Alex Steinweiss, que em meio ao cartazes e posteres promocionais, se deu conta de que podia fazer o mesmo na capa dos álbuns. Seus chefes, obviamente, não curtiram muito a ideia, a princípio, pois por uma ilustração nas capas encareceria o valor final de cada álbum, mas compraram a ideia, e o álbum Smash song hits by Rodgers & Hart, de 1939, foi o primeiro a vir com a arte de capa de Steinweiss. Os executivos da Columbia esboçaram sorrisos de orelha a orelha quando a venda dos álbuns começou a deixar a concorrência comendo poeira, concorrência essa que começou a copiar a ideia quando viu as vendas da Columbia aumentarem em quase 10 vezes.
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Sendo o pai da ideia, Steinweiss impôs um estilo que lhe era peculiar e criativo, com influência do design russo. Suas capas não continham imagens do artista ou fotografias, e suas imagens procuravam sugerir o conteúdo musical, fugindo ao óbvio de se simplesmente por o artista e seus instrumentos na capa. Com o advento do LP em 1948, manteve o estilo nos envelopes cartonados de 27 x 27 cm e depois 31×31 cm, além de criar o padrão que foi seguido até o advento do CD, com imagem na capa e espaço para texto na contracapa. E tais textos, a depender de quem escrevia, eram verdadeiras aulas de educação musical para os fãs em épocas pré-Google. Também é dele a paternidade da logomarca da Columbia com as letras “LPâ€, já que por muitos anos a Columbia se reservou a prerrogativa de usar esse nome, pois foi ela quem inventou o formato.
Mas Alex não ficou muito tempo restrito a Columbia. Após ser substituído em seu posto, acabou se tornando freelancer e fez capas para a concorrência ainda por alguns anos, mas quando as gravadoras começaram a preferir o óbvio de ilustrar as capas com fotos (incluindo o modismo dos anos 50 de modelos seminuas), o designer se afastou do mundo da música. Mas sua vingança dupla foi deixar sua influência no mundo das capas e, ironicamente viver o bastante para ver seu formato reduzido aos minúsculos encartes de CD, cujo tamanho raramente fazia justiça a arte exposta na capa de um LP, e até ver isso praticamente sumir com a adoção maciça do MP3.
Nesse meio tempo, outros designs conciliaram a ilustração e fotografia, criando imagens clássicas, tão ou mais famosas que seus álbuns, como os criados por George Hardie para capas de álbuns produzidas pela Higpinosis, ou o brasileiro Cesar G.Villela que, junto com o fotógrafo Chico Pereira, se tornou famoso pelas capas dos discos de Bossa Nova da Gravadora Elenco.
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Pode até parecer saudosismo, mas só os das gerações anteriores tiveram o prazer de paquerar LPs expostos nas vitrines das lojas, fazendo uma ostensiva propaganda de si mesmos, que se tentou emular com os minúsculos CDs. E talvez seja um dos pequenos prazeres que os aficionados por LPs tentem resgatar. Confesse: quem nunca, ao menos uma vez, não foi atraído a comprar um álbum devido a arte da capa, para só depois se preocupar em ver sea música ali prestava?
P.S: Querendo conhecer mais a arte desse pioneiro, a Taschen lançou um álbum intitulado Alex Steinweiss:The Inventor of the Modern Album Cover, ou pode apenas visitar seu site oficial
De: Papo de Blodega < moziel81@hotmail.com >
Para: sulinhacidad3@zipmail.com.br
Assunto: Papo de Blodega - Aqui Até a Conversa é Fiada
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