José Cleves
Há hoje em dia vários questionamentos sobre o verdadeiro papel da imprensa brasileira na vida política e social do País. Alguns jornalistas renomados a tem como o Quarto Poder. Outros, como o decano Alberto Diners, o mais critico dos críticos da imprensa brasileira, acham que não. “Pode ser o quinto ou o sexto poder, mas nunca o quarto”, disse o criador do Observatório da Imprensa, numa entrevista que li tempos atrás aqui mesmo neste site. Diners justificou o seu posicionamento comparando a imprensa norte-americana com a nossa, dizendo que nos EUA a imprensa se posiciona nos editoriais e aqui, no noticiário, de forma a reproduzir fatos tendenciosos e inconvincentes.
A mistura de opinião com notícia faz deste alho com bugalho algo tão primitivo que nos faz refletir sobre esse atraso da nossa imprensa a caminho do terceiro milênio. Penso que a primeira coisa que o dono de um veículo de comunicação tem que fazer para dar credibilidade à sua empresa é separar a opinião, que é dele, do noticiário, que não tem dono. Somente assim, o veículo será objetivo e imparcial, ainda que o seu corpo editorial se declare partidário. A redação deve ser comparável a uma figura geométrica de vários lados, inclusive o do patrão, mas apenas um merece a preferência – o do interesse público.
O polêmico Augusto Nunes, autor da autobiografia de Samuel Wainer Minha Razão de Viver (o mesmo que certa ocasião disse que não é função de jornalista investigar, embora seja ele um jornalista investigativo da melhor qualidade), tem a mesma opinião. Nunes tira o poder da imprensa brasileira dando como exemplo o fracasso dos veículos de comunicação em três episódios históricos: a volta de Getúlio Vargas ao poder, em 1951; a eleição de Leonel Brizola para o Governo do Rio (1982) e de Lula para presidente (2002), todos eles eleitos a contragosto da grande imprensa. “Se ela (a imprensa) tivesse todo esse poder, nenhum desses políticos seriam eleitos”, espetou Nunes em uma de suas observações sobre o assunto.
>p>Sede de poder
Outros jornalistas afirmam que a imprensa fracassou também no Estado Novo de Getúlio (1937-1945) e na consolidação da ditadura pelo governo militar, em 1968 (quatro anos após o golpe militar que durou até 1985), com a edição do AI-5 (1969-1979), e em tantos outros episódios históricos e anti-democráticos, pelo simples fatos de não conseguir mobilizar a opinião pública. E diante do fracasso iminente, uma parte bandeou para o lado mais forte – o do poder político. Ou seja, para os céticos, se os veículos de comunicação de massa fossem realmente o Quarto Poder, eles conduziriam o País conforme o seu desejo, porque teriam força suficiente para isso.
Vejo essa polêmica traçando o oposto da imprensa ideal, aquela que age com subjetividade e parcialidade a serviço de grupos políticos e não do interesse público. Quando a imprensa deixa de prestar contas à opinião pública para atender outros interesses, ela perde força e credibilidade. A volta de Getúlio ao poder, em 1951, por exemplo, contrariava os barões do café (que mandavam na imprensa da época), devido ao trabalhismo getulista que, na opinião destes, trocava o homem do campo por operários. Já nas eleições de Brizola e Lula, os banqueiros, também donos da imprensa contemporânea, se diziam preocupados com a elevação do “risco Brasil” caso a esquerda tomasse o poder. Injetaram dinheiro nos donos da opinião pública, mas não puderam valer a sua vontade por total falta de credibilidade da imprensa bandida.
Ditadura ignorada
A verdade é que Getúlio venceu nas urnas em 1950 por causa do que ele fez para o trabalhador, como a Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT), e até hoje é lembrado por esse legado. Algo tão relevante nos seus 18 anos de poder (1930-1945 e 1951-1954) que pouco importa a muitos historiadores e formadores de opinião a sua veia de ditador implacável. Já o então “perigoso” Lula derrotou a elite em 2002 por causa das medidas impopulares de Fernando Henrique Cardoso, como a venda da Vale, por exemplo. E deixou o governo, após dois mandatos, com uma aceitação recorde por causa de seus programas sociais. Brizola somente não fez tanto sucesso por conta da campanha difamatória movida contra o seu governo, principalmente pela Rede Globo.
Quanto ao AI-5, este foi editado e vigorado pela linha dura do Exército em pleno regime de exceção. A sua instalação fugiu ao controle da imprensa e ainda ficou barato, porque o texto original redigido pelo ministro da justiça, Gama e Silva, era bem pior. O documento sugeria o fechamento do Supremo Tribunal de Justiça (STJ), o Congresso, os poderes legislativos estaduais e municipais e deporia até os prefeitos de todas as cidades brasileiras. Seria a ditadura nazifascista mais cruel da América Latina. Até o truculento presidente Costa e Silva (1967-1969) se opôs a essa “dose calavar”, assinando algo, digamos, menos letal, na palavra de seu ex-chefe da Casa Civil, Rondon Pacheco.
Tudo pelo dinheiro
A verdade é que a imprensa pode muito e não pode nada ao mesmo tempo, porque é movida pelo dinheiro. Quando colocamos em confronto o capital e o trabalho, a grande imprensa fica com a primeira opção e o povo com a segunda. Será sempre assim. O trabalhador é a parte menos favorecida nas decisões políticas e isso está provado pela história recente do Brasil, a partir da revolução de 1930, quando da revolta dos cafeicultores de São Paulo, e a guerra travada entre Getúlio e Carlos Lacerda, batalha essa que se acirrou com a criação do jornal Última, uma doação de Getúlio a Samuel Wainer, seu amigo, fato esse que Lacerda, concorrente direto da Wanier, não aceitou.
Essa briga acabou com o suicídio de Getúlio, que deu um passo para a eternidade e outro para a história, como ele escreveu na sua carta-testamento, mas as divergências continuaram em outros patamares. Assis Chateaubriand (1892-1968), por exemplo, que comandava o maior império jornalístico do País em meados do século passado, sempre usufruiu do poder. Apoiou as coisas erradas e certas de Getúlio, enquanto isso lhe interessou. O jornal Estado de Minas, do Grupo Associados – o chamado “Grande Jornal dos Mineiros”, um dos poucos remanescentes do império de Chatô – sempre esteve com o governo onde o governo estiver, porque herdou essa vocação do pai dos associados.
Mudando de opinião em 24h
O único entrevero que o jornal teve com o governo do Estado foi durante o mandato de Newton Cardoso (1987-1991) e a razão disso todos sabem. Newtão vetou a derrama de verbas publicitárias para o jornal que, em represália, partiu para cima do governador que sofreu uma das maiores perseguições feitas a um político neste país. Justa ou injusta, as denúncias foram motivadas pelo vil metal. Aliás, o rei da retórica política brasileira, Carlos Lacerda (1914-1978), ex-governador do antigo Estado da Guanabara, sublinhou assim um comportamento nada ético do então famoso Jornal do Brasil, sobre a relação do diário com o então-governador Negrão de Lima, que governou o mesmo estado de 1965 a 1970, em pleno regime militar:
“O Jornal do Brasil pediu intervenção no Rio alegando que o Governo de Negrão de Lima não prestava; 24h após restabelecer o recebimento da verba publicitária para o jornal, o governador passou a ser coberto de elogios pela mesma emissora; essa é a incoerência da imprensa nacional”, criticou Lacerda à ocasião, em entrevista à extinta TV Tupi, da Rede de Emissoras Associadas de Chateaubriand.
Dentro desse quadro de interesses, podemos dizer que a imprensa é um Quarto Poder conveniente. Quando o dono não interfere na redação – e essa é competente – empareda os poderes constituídos, mas quando age por interesses obscuros no noticiário, é inconveniente e nefasta para o interesse público e generoso com o poder dominante. Atualmente, podemos afirmar, com absoluta certeza, que a imprensa convencional já não tem o mesmo poder de antigamente. Perdeu no mínimo uma posição para a Internet, onde o povo é quem forma a sua própria opinião. Ao invés do controle remoto da televisão ou do seletor do rádio e/ou do papel da mídia imprensa, essa nova geração de editores-leitores usa o teclado do computador para opinar, apagar ou salvar opiniões e fatos, conforme a sua crença.
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