Bem que o mercado de capitais, tal como acontece em diversas atividades, principalmente as esportivas, poderia ter o seu hall da fama. Eu mesmo gostaria de introduzir dois personagens nessa galeria.
Vamos a eles:
Antônio José de Almeida Carneiro, o Bode:
No dia 7 de junho de 1970, eu estava sentado em um banco da Plaza del Sol, em Guadalajara, México, aguardando a hora de ir para o estádio Jalisco, onde o Brasil enfrentaria a Inglaterra pela 9ª Copa do Mundo de futebol.
Eis que outro brasileiro se aproximou de mim:
“Você não é o Ivan Sant’Anna”, ele perguntou.
Foi assim que conheci Antônio José de Almeida Carneiro, mais conhecido como Bode, que iria se tornar um dos meus melhores amigos, praticamente um irmão.
Antônio José nasceu em Ponte Nova, Minas Gerais, filho de um renomado professor de Agronomia.
Mais tarde a família Carneiro se mudou para Belo Horizonte. Durante sua adolescência, Bode, além dos estudos, praticou basquete e futebol.
Já adulto, seu primeiro emprego foi o de lavador de pratos em um navio de passageiros, tendo a oportunidade de conhecer a Europa.
De volta ao Brasil, Antônio José foi trabalhar no Banco Mercantil de Minas Gerais, onde fez uma carreira meteórica. Em pouco tempo foi indicado para a agência Posto Seis, no Rio de Janeiro, já com o cargo de gerente.
Logo sua agência se tornou a mais rentável do banco em todo o país.
Bode não se contentou com isso.
No final da década de 1960, o mercado de capitais brasileiro estava entrando em uma fase de grande prosperidade, o que não passou despercebido por ele.
Uma das principais corretoras era a Marcello Leite Barbosa. Foi justamente para lá que o Bode se transferiu. Tornou-se operador de open market, ganhando, além do salário, participação nos lucros da mesa de operações.
Os resultados foram tão bons que Antônio José ganhou dinheiro suficiente para comprar, junto com outros parceiros, a corretora Multiplic.
Foi nessa época que nós iniciamos nosso relacionamento, no México.
Operando ao telefone, Bode era tão fera que às vezes o operador do outro lado da linha se recusava, por puro medo, a fazer negócios com ele.
“Aqui Antônio José, Multiplic”, ele tentava iniciar um diálogo.
A ligação “caía” do outro lado.
Em 1978, o Bode recebeu um convite do Lloyds Bank, da Inglaterra, para iniciar uma parceria.
Eu fui com ele nessa viagem a Londres.
O Lloyds e a Multiplic fundaram a financeira Losango.
Antônio José pode então montar uma das operações mais lucrativas de todos os tempos no mercado financeiro do Brasil. Tomou um empréstimo em libras esterlinas no mercado londrino, a taxas de juros baixíssimas, e alavancou o dinheiro em crédito direto ao consumidor a taxas brasileiras.
Evidentemente, a Losango correu riscos cambiais. Mas o spread entre as duas taxas (do Brasil e da Grã-Bretanha) era tão grande que abafou o risco. E a operação entrou para os anais.
Após deixar o mercado de capitais, Antônio José de Almeida Carneiro passou a atuar nas áreas de energia elétrica e imobiliária.
Atualmente com 83 anos de idade, Bode tem uma vida longe dos holofotes, passando boa parte do tempo em sua fazenda, em Minas Gerais, onde cria cavalos da raça manga-larga marchador.
Alfredo Grumser Filho, o Malba Tahan
Alfredo era professor de matemática na PUC do Rio de Janeiro. Conhecia tão bem a matéria que os alunos o apelidaram de Malba Tahan, numa alusão ao professor Júlio César de Mello e Souza, que usou esse pseudônimo árabe em seu fantástico livro O homem que calculava.
Pois bem, no início da década de 1970, Alfredo Grumser ganhou um prêmio vultoso na loteria esportiva. Ganhou, mas perdeu tudo especulando na Bolsa de Valores do Rio de Janeiro.
Nessa ocasião, iniciava-se uma febre no mercado financeiro do Brasil. Tratava-se do open market, no qual os profissionais faziam fortunas em tempo recorde.
“Eu sei fazer contas”, Alfredo costumava dizer. E, mostrando que sabia mesmo fazer contas, obteve um emprego na mesa de open da corretora Multiplic, aquela que tinha entre seus sócios majoritários Antônio José de Almeida Carneiro.
Tal como acontecera com o Bode na Marcello Leite Barbosa, na Multiplic Alfredo ganhou rapidamente uma “nota roxa”, expressão que ele usou quando me contou a história.
Com a grana no bolso, o Malba, junto com outros operadores da Multiplic, saiu da empresa e fundou uma distribuidora de valores à qual deram o sugestivo nome de Open.
Em poucas semanas a Open deu uma tacada enorme e se tornou dealer do Banco Central. Ou seja, entrou para o rol das instituições que operavam para o BC.
Alfredo Grumser sempre se revelou inquieto. Da Open ele saiu para operar nada menos do que as carteiras de tesouraria e dos fundos do Bradesco.
Só que seu auge ainda estava por vir.
Após sair do Bradesco, Alfredo simplesmente se tornou o trader mais importante do país. Operava principalmente no mercado de opções de ações da Cia. Vale do Rio Doce (atual Vale), negociadas na Bolsa de Valores do Rio de Janeiro.
Sua presença era tão relevante que todo mundo queria saber se ele estava comprado ou vendido. Boatos rolavam nos telefones:
“Ele está vendido. Está comprado.”
Nunca vou me esquecer do dia em que ele chegou em meu escritório e disse:
“Ivan, não acredite em nada do que eu disser nas próximas duas semanas.”
Alfredo Grumser Filho parou no auge. De repente, sem que ninguém esperasse, ele se mudou para os Estados Unidos deixando o mercado órfão de seu talento. Mas continuou vindo regularmente ao Brasil, onde criava, em Bagé, no Rio Grande do Sul, cavalos de corrida.
Como não podia deixar de ser, obteve enorme sucesso nessa atividade, tornando-se o mais bem sucedido proprietário de cavalos PSI (puro-sangue inglês) no Brasil.
Alfredo se foi repentinamente em setembro de 2021.
Recentemente, seus herdeiros me convidaram para dar um depoimento sobre suas atividades no mercado. A gravação será parte de um documentário.
Como se viu acima, eu tive a enorme sorte de conviver, ao mesmo tempo, com Antônio José de Almeida Carneiro, o Bode, e Alfredo Grumser Filho, o Malba Tahan. Duas figuras imprescindíveis no hall da fama do mercado brasileiro de capitais.
Volta e meia me recordo de um jantar com o Bode no restaurante Lasserre em Paris, em janeiro de 1978, e de um almoço com o Alfredo no restaurante chinês Fus, em Nova York, em dezembro de 1993.
Muitas das coisas que escrevo nesta minha coluna são resultado das conversas que tive com esses dois gênios do mercado.