Em vez de voltar diretamente da Inglaterra para o Brasil, resolvi cruzar o Atlântico Norte e dar um pulo em Chicago, onde ficava o escritório da Shearson Lehman Brothers, corretora da qual eu era foreign broker (corretor não residente no país).
Tal como sempre fazia quando visitava a Shearson, conversei com diversos analistas. Um deles, o meteorologista Jon Davis, chamou minha atenção para um evento climático que poderia influenciar o preço de diversas commodities agrícolas, principalmente os grãos.
Tudo indicava, segundo Davis, que o fenômeno La Niña (esfriamento das águas do Oceano Pacífico) iria ocorrer no verão daquele ano.
Outros La Niña anteriores haviam provocado seca no Corn Belt (Cinturão do Milho), como é conhecido o Meio-Oeste americano.
Voltei empolgado para o Brasil, escolhi o mercado de soja como alvo e fiquei observando as cotações.
O contrato futuro de Soja com vencimento em Novembro de 1988 vinha sendo negociado entre seis e sete dólares por bushel (unidade de peso equivalente a 27,21 kg).
Minha carteira pessoal estava com caixa baixo naquela ocasião. Mas eu operava contas de dois clientes bem abonados, que me deixavam “treidar” discricionariamente.
Quando o mercado rompeu a resistência psicológica dos US$ 7, entrei comprando.
Não deu nem para sofrer. No dia da compra, a Soja Novembro já fechou em limite de alta. Melhor: o ajuste positivo daquele pregão foi maior do que a margem de garantia que deveríamos depositar. Ou seja, ninguém pôs dinheiro na mesa. O lucro percentual seria infinito.
Como nunca se sabe até onde um bull market pode ir, decidi, aleatoriamente, vender, para cada uma das duas contas, 1/3 dos contratos a US$ 8,00; 1/3 a US$ 9,00; e 1/3 a US$ 10,00.
Na Parte 2 de meu livro Os Mercadores da Noite, publicado em 1996, o personagem principal, Julius Clarence, ganha uma fortuna num bull market futuro de soja.
É lógico que, para escrever este trecho de minha ficção, me baseei naquela tacada real de 1988. Vejam como descrevi, no livro, o episódio:
“Poucas pessoas, além de Julius Clarence e de alguns espertos especuladores da Bolsa de Chicago, conseguiram prever a seca daquele ano. No quadrilátero entre os Grandes Lagos, ao Norte, as montanhas Apalaches, a Leste, os campos de Oklahoma, ao Sul, e as Montanhas Rochosas, a Oeste, foram registrados os menores índices pluviométricos desde que os índices começaram a ser medidos.
Nos normalmente férteis campos de Iowa, Illinois, Indiana e Missouri, as plantações simplesmente não se desenvolviam. Os fazendeiros olhavam desolados para as vagens secas e esturricadas, procurando ao longe, no horizonte, alguma nuvem anunciando a chuva. Mas esta não chegava. Devido à primavera chuvosa, as raízes das plantas haviam se aprofundado pouco no solo. Não conseguiam, agora, absorver o pouco de umidade existente embaixo da terra.
Se não tinha chuva, pior era o calor. Temperaturas só atingidas no Dust Bowl em 1934 eram registradas todos os dias. As nuvens de poeira escondiam a paisagem desolada. A água foi racionada em Minneapolis, Saint Paul, Omaha, Kansas City e Saint Louis. As pessoas ficavam em casa, deitadas ao lado do ventilador, sem ânimo para o trabalho. Em Chicago, à noite, a população levava suas cadeiras para as ruas, tentando se refrescar com a brisa vinda do Lago Michigan.
...
No final de agosto e início de setembro, o mercado foi tomado por uma onda especulativa sem igual. Todo mundo comprava soja a futuro. Até os mensageiros do pregão de Chicago apostavam suas economias no mercado. Da Costa Leste, o pessoal de Nova Iorque, geralmente mais ligado ao mercado de ações de Wall Street, começou a jogar na Bolsa de Chicago. Os boletins de meteorologia eram lidos avidamente pelos especuladores. Boatos davam conta de que iria faltar soja no final da temporada e os Estados Unidos, acreditem, seriam forçados a importar o produto da América do Sul e, até mesmo, da Europa.”
Uma coisa que aprendi nos longos anos nos quais fui broker é que os especuladores são muito mais corajosos no prejuízo do que no lucro.
Quando a Soja Novembro começou a bater limite de alta após limite de alta, fui pressionado para realizar o lucro.
Não cedi. Tal como planejara, vendi um terço dos contratos a oito, um terço a nove e um terço a dez.
A cotação ainda chegou a US$ 10,83 antes de cair.
Sem que tivessem aplicado um centavo sequer, cada um dos clientes ganhou 900 mil dólares na operação. Novecentos mil de 1988, bem entendido, que equivalem hoje a US$ 3.533.000,00.