Diferentemente do modelo atual de disputa, em 1950 a decisão se dava através de um quadrangular, no caso entre as equipes do Brasil, Uruguai, Suécia e Espanha.
Do jogo Brasil 6 x 1 Espanha, me recordo da torcida cantando Touradas em Madri, um sucesso do carnaval daquele ano.
“Eu fui às touradas em Madrid
Para tim bum, bum, bum
Para tim bum, bum, bum...”
Da partida final, que a antologia do futebol passou a chamar de Maracanazo, ficou guardada na minha memória a cena da pequena torcida uruguaia comemorando, nas arquibancadas, o gol de Ghiggia que estabeleceu o placar de 2 a 1.
Quatro anos mais tarde, acompanhei pelo rádio a transmissão da Copa de 1954, realizada na Suíça.
O favoritismo da seleção húngara era absoluto. Confirmando isso, eles, mesmo desfalcados de seu principal astro, Ferenc Puskás, eliminaram a seleção canarinho vencendo-a por 4 a 2, num jogo violento que ficou conhecido como a Batalha de Berna.
Se a vitória do Uruguai sobre o Brasil em 1950 foi rotulada como zebra, o mesmo aconteceu no triunfo da Alemanha Ocidental contra a Hungria na final de 1954. Três a dois, de virada, para perplexidade dos estudiosos do futebol.
Em 1958, nos gramados da Suécia finalmente chegou a nossa vez. Pudera! Aos clássicos Didi e Nilton Santos, entre outros, juntou-se uma dupla que jamais perderia uma partida atuando junta: Garrincha e Pelé.
Eu “ouvi” a finalíssima Brasil 5 x 2 Suécia pela televisão. Ou seja, numa época em que ainda não existiam transmissões via satélite, a TV Tupi irradiou a partida mostrando na tela a imagem do jogador brasileiro que estava com a bola.
Em 1961, ano em que completei meu 21º aniversário, meu pai me deu de presente uma viagem à Europa.
Para espanto dele, eu recusei.
“Prefiro que você me dê uma viagem ao Chile no ano que vem, para ver a Copa do Mundo.”
Dito e feito. Quando a seleção brasileira se alinhou para enfrentar o México em sua primeira partida, disputada no estádio Sausalito, em Viña del Mar, eu estava nas arquibancadas.
Naquela época as copas ainda eram low profile. Em Viña, por exemplo, as quatro seleções (Brasil, Espanha, Tchecoslováquia e México) que disputavam a chave local e torcedores desses países se encontravam à noite numa casa de fliperama que servia também como discoteca.
Muita gente afirma que Garrincha ganhou aquela Copa sozinho. Isso não fica muito longe da verdade.
Com Pelé se contundindo seriamente logo no segundo jogo, e ficando fora da Copa, o ponta das pernas tortas liquidou a parada. Fez coisas que jamais tinha feito: gol com a canhota, gol de cabeça, gol em cobrança de falta.
Após a partida final, disputada em Santiago, na qual o Brasil venceu a Tchecoslováquia por 3 a 1, eu estava parado numa esquina da capital chilena quando uma Kombi pintada com as cores do Brasil parou no semáforo ao meu lado.
Garrincha esticou a cabeça para o lado de fora de uma das janelas do veículo e me perguntou alegremente:
“E aí, gente boa? Gostou do jogo?”
Para a Copa seguinte, a de 1966, disputada na Inglaterra, o Brasil perfilou a maior constelação de estrelas futebolísticas já reunida até hoje.
Dos bicampeões de 1962, Gilmar, Bellini, Djalma Santos, Zito, Garrincha e Pelé. Dos futuros tricampeões de 1970, Brito, Gerson, Jairzinho, Tostão e Pelé.
Acontece que os campeões de 1962 já estavam em final de carreira. Os de 1970, ainda verdes. E Pelé, caçado em campo pelos adversários, novamente se contundiu.
Resultado: o Brasil não passou da primeira fase, ganhando apenas da Bulgária (2 a 0) e perdendo da Hungria (1 a 3) e de Portugal (também 1 a 3).
Nessa época eu morava em Nova York. Comprei um rádio de ondas curtas para acompanhar essas três partidas, além da finalíssima, quando a Inglaterra derrotou a Alemanha na prorrogação fazendo um gol no qual a bola não entrou.
Se mal acompanhei a Copa de 1966, em 1970 me mudei de armas e bagagens para o México.
Assisti a todos os jogos do Brasil, frequentei Las Suites El Caribe, onde nossa seleção se concentrava em Guadalajara.
Fiz grandes amizades que perduram até hoje como, entre outras, a do Carlos Alberto Parreira, então um dos preparadores físicos da seleção.
A Copa do Mundo de 1974, disputada na Alemanha Ocidental, foi a primeira transmitida em cores para o Brasil.
A Laranja Mecânica, equipe holandesa liderada por Johan Cruyff, deslumbrou o mundo, eliminou o Brasil mas perdeu a final para a Alemanha de Franz Beckenbauer.
Em 1978 a Argentina organizou a Copa para ganhar. E ganhou. Ganhou com arbitragens no mínimo duvidosas em quase todos os seus jogos.
Mesmo sendo a única equipe que terminou o torneio invicto, o Brasil tirou terceiro lugar.
No jogo Argentina x Peru, os hermanos precisavam vencer por quatro gols de diferença para se classificarem para a final. E ganharam de seis a zero.
Pode até ser coincidência, uma notável coincidência. O goleiro peruano, Ramón Quiroga, era argentino de nascimento.
Ao desembarcar em Lima, após a goleada, os jogadores do Peru foram recebidos com uma chuva de moedas lançada por torcedores furiosos.
Se o Brasil de Ademir, a Hungria de Puskás e a Holanda de Cruyff perderam, respectivamente, em 1950, 1954 e 1974, as Copas que não podiam perder, em 1982, na Espanha, esse papel de franco favorito derrotado coube ao Brasil dos cracaços de bola Zico, Falcão, Sócrates, Júnior, Edinho, Dirceu e companhia.
Esse grupo estrelado foi eliminado pela Itália, Itália essa que seria campeã do torneio.
Se Garrincha venceu sozinho a Copa de 1962, o mesmo se pode dizer de Diego Maradona, em 1986, no México.
Dois de seus gols, contra a Inglaterra e a Bélgica, são considerados por muitos como os mais bonitos de todas as Copas.
Houve também um outro, com a mão, também contra os ingleses, que ficou registrado nos almanaques do futebol. Mas, por tudo que fez nos gramados, Dieguito foi perdoado.
“La mano de Dios”, ele assim classificou seu gol.
Se há uma Copa que pode ser rotulada como pobre de futebol, essa foi a de 1990.
Muitos empates em 0 a 0, muitas decisões por pênaltis, muitos jogos amarrados, insípidos, melancólicos.
Em mais um lance genial de Maradona, o Brasil foi eliminado pela Argentina.
Vinte e quatro anos após o tri no México, o Brasil voltou a ser campeão, dessa vez nos Estados Unidos.
Entre todas as nossas conquistas mundiais, essa foi a menos brilhante. Tanto é assim que fomos campeões num erro, erro do italiano Roberto Baggio, que isolou para as arquibancadas a cobrança de pênalti que nos deu o título.
Na Copa do Mundo de 1998, realizada na França, o Brasil, de Ronaldo Fenômeno, Rivaldo e Roberto Carlos, era franco favorito. E, como favoritos, chegamos à final contra os donos da casa.
Nesse dia, logo após o almoço, Ronaldo sofreu uma convulsão. Levado a um hospital, recebeu medicação e foi liberado para jogar.
Evidentemente que isso abalou o time. E o abalo foi ainda maior quando o mesmo Ronaldo, logo no início da partida, se chocou violentamente com o goleiro francês, Barthez.
Com dois gols de cabeça de Zinedine Zidane e um de Petit, a França nos derrotou por 3 a 0.
Aquela derrota no Stade de France nos tirou um tri legítimo. Sim, legítimo. Porque havíamos vencido a Copa anterior, nos Estados Unidos, e venceríamos a seguinte, na Coreia do Sul e Japão.
Para 2002, o Brasil levou o time dos astros. A Ronaldo, Rivaldo e Roberto Carlos, iria se juntar Ronaldinho Gaúcho, o Bruxo.
Alguns lances geniais da seleção canarinho ficarão registrados para sempre:
- a violência do chute no gol de falta de Roberto Carlos contra a China aos 14 minutos do primeiro tempo;
- o gol mágico de Ronaldinho Gaúcho, também de falta, contra a Inglaterra. A bola descreveu um arco contrário ao do que seria normal e entrou no ângulo do goleiro inglês, David Seaman;
- a perseguição, malsucedida, de quatro jogadores turcos ao atacante Denilson na semifinal Brasil 1 x 0 Turquia. Daí surgiu a expressão “Denilson neles”;
- a naturalidade com que Ronaldo finalizou duas vezes contra o goleiro alemão Oliver Kahn, na finalíssima.
Quatro anos mais tarde, na Alemanha, boa parte dos grandes craques brasileiros de 2002 se reuniu para outra Copa, reforçados pelo “Imperador” Adriano.
Pena que diversos jogadores estavam fora de forma. E o Brasil perdeu para a França numa partida eliminatória pela terceira vez (1986-1998-2006).
A seleção brasileira que se apresentou para a Copa de 2010 na África do Sul era tudo menos brilhante. Menos brilho tinha ainda o técnico Dunga, com pouquíssima experiência na profissão.
O Brasil foi eliminado pela Holanda nas quartas-de-final.
Dois mil e quatorze tinha tudo para ser o nosso ano. País-sede, ainda mais se tem tradição em Copas, é sempre um dos favoritos.
Afinal de contas, nas 19 disputas anteriores, seis anfitriões (Uruguai, Itália, Inglaterra, Alemanha Ocidental, Argentina e França) tinham sido campeões.
O sonho do que poderia ser o hexacampeonato se esfumou na tarde de 8 de julho de 2014, no Mineirão, quando a seleção canarinho sofreu uma derrota acachapante por 7 a 1.
Nas rodas de futebol, basta falar “sete a um” e os entendidos saberão do que se trata.
Aos 34 minutos do segundo tempo, quando a Alemanha marcou seu sétimo gol, ocorreu um fato que a maior parte das antologias do futebol não registra.
A torcida brasileira que ainda restava no estádio aplaudiu de pé o time visitante, levando às lágrimas vários jogadores alemães.
Em 2018, na Rússia, o Brasil foi eliminado pela Bélgica nas quartas-de-final. O título mundial ficou com a França, que derrotou na final a equipe da Croácia por 4 a 2.
Quatro anos mais tarde, no Catar, o argentino Lionel Messi, considerado um dos maiores jogadores de todos os tempos, pôde finalmente erguer a Taça de Campeão do Mundo.
Nessa Copa, a seleção brasileira foi eliminada pela Croácia na disputa de pênaltis.
Nos próximos dias, quando a bola rolar no Estádio Azteca, na Cidade do México, entre as seleções mexicana e sul-africana, estará iniciada a 23ª Copa do Mundo, a primeira reunindo 48 seleções.
Definitivamente a equipe brasileira não é a favorita. Por outro lado, de modo algum será considerada um azarão.
Vale lembrar que, quando se iniciou a Copa de 1958, na Suécia, Garrincha e Pelé nem eram titulares. Os dois só entraram na terceira partida, contra a União Soviética, quando passaram a escrever um dos mais bonitos capítulos da história do “violento esporte bretão”.
Quem sabe alguns dos 26 integrantes da seleção canarinho, a única que disputou todos os mundiais, desabrocharão para o mundo nos gramados da América do Norte?
Essa história começará a ser contada a partir das 19h (horário de Brasília) do sábado, dia 13.
Mesmo sentado no sofá de minha sala, vou me sentir como se estivesse subindo a rampa do Maracanã, tal como fiz no sábado 24 de junho de 1950, para assistir Brasil x México, partida inaugural daquela Copa.
Desde então, 76 anos se passaram. Mas a emoção continua a mesma.