"O Vermelho" por Jack London Ali estava! A súbita libertação do som! Enquanto cronometrava com seu relógio, Bassett comparou-o ao toque da trombeta de um arcanjo. Muralhas de cidades, meditou ele, bem poderiam ruir diante de uma convocação tão vasta e irresistível. Pela milésima vez, em vão, tentou analisar a qualidade tonal daquele enorme estrondo que dominava a terra, estendendo-se até as fortalezas das tribos vizinhas. O desfiladeiro da montanha, sua nascente, ressoava com a maré crescente até transbordar e inundar a terra, o céu e o ar. Com a lascívia de um delírio doentio, comparou-o ao poderoso grito de algum Titã do Mundo Antigo, atormentado pela miséria ou pela ira. Cada vez mais alto, elevava-se, desafiando e exigindo com um volume tão profundo que parecia destinado a ouvidos além dos estreitos limites do sistema solar. Havia nele, também, o clamor de protesto, pois não havia ouvidos para ouvir e compreender sua emissão. —Tal era o devaneio do doente. Mesmo assim, ele se esforçou para analisar o som. Era sonoro como um trovão, suave como um sino de ouro, fino e doce como uma corda de prata esticada e vibrante — não; não era nada disso, nem uma mistura disso. Não havia palavras nem semelhanças em seu vocabulário e experiência com que pudesse descrever a totalidade daquele som. O tempo passou. Minutos se fundiram em quartos de hora, e quartos de hora em meias horas, e o som persistia, sempre mudando de seu impulso vocal inicial, mas nunca recebendo um novo impulso — desvanecendo, diminuindo, morrendo tão estrondosamente quanto surgira. Tornou-se uma confusão de murmúrios perturbados, balbucios e sussurros colossais. Lentamente, retirou-se, soluço a soluço, para o grande seio que o gerara, até que sussurrou ira mortal e, igualmente, sussurros sedutores de deleite, ainda lutando para ser ouvido, para transmitir algum segredo cósmico, alguma compreensão de infinita importância e valor. Reduziu-se a um fantasma sonoro que perdera sua ameaça e promessa, e tornou-se algo que pulsava na consciência do doente por minutos após ter cessado. Quando não pôde mais ouvi-lo, Bassett olhou para o relógio. Uma hora havia se passado antes que a trombeta do arcanjo se dissipasse no nada tonal.
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