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03 maio, 2026

Morre Raimundo Pereira, fundador do jornal Movimento e símbolo do jornalismo de Resistência | Blog do Gerson Nogueira


Raimundo, que parte aos 85 anos, foi protagonista na luta contra a ditadura e referência ética da imprensa brasileira

Morreu nesta manhã, no Rio de Janeiro, aos 85 anos, o jornalista Raimundo Rodrigues Pereira, um dos nomes mais importantes da história da imprensa brasileira e figura central na Resistência democrática durante a ditadura militar. Fundador do jornal Movimento, ele deixa um legado marcado pelo rigor jornalístico, pela coragem política e pela construção de uma imprensa comprometida com a verdade e com o interesse público.

Raimundo Rodrigues Pereira iniciou sua carreira em veículos de grande prestígio, como a revista  Realidade  e o jornal O Estado de S. Paulo, onde se destacou pela qualidade de suas reportagens e pela profundidade de suas análises. No entanto, foi na imprensa alternativa que consolidou seu papel histórico.

Durante a ditadura militar (1964-1985), quando a censura e a repressão limitavam drasticamente o jornalismo, Raimundo integrou uma geração que enfrentou o autoritarismo com informação, análise crítica e compromisso democrático.

Fundado em 1975, o jornal Movimento tornou-se um dos pilares da imprensa alternativa brasileira. Sob sua liderança, o veículo assumiu papel decisivo na denúncia das arbitrariedades do regime e na construção de uma narrativa crítica em defesa da democracia.

Mais do que um jornal, Movimento foi também um espaço de articulação política e social, reunindo vozes silenciadas e contribuindo para a formação de uma consciência crítica no país.

O editor internacional do Brasil 247, José Reinaldo Carvalho, destacou a importância histórica de Raimundo: “Raimundo Pereira foi um dos melhores jornalistas brasileiros”, afirmou. Segundo ele, o jornalista foi “pioneiro do jornalismo interpretativo e opinativo”, destacando-se pelo rigor e pela coerência.

Reinaldo também ressaltou o papel estratégico do jornal Movimento: “Mais do que um jornal, o Movimento foi um organizador coletivo”, disse, lembrando que o veículo ajudou a articular forças políticas e sociais contra a ditadura. 

Para ele, o jornal foi “um dos propulsores da ampla frente democrática” que se formou no país naquele período. Mario Vitor Santos, diretor do Brasil 247, também homenageou o jornalista. „Raimundo Rodrigues Pereira foi um exemplo para uma geração. Tinha a virtude máxima requerida ao jornalismo: a coragem. Aliava a isso um apreço inflexível pela qualidade da informação fornecida ao público”, afirmou.

RESISTÊNCIA SOB CENSURA

A atuação de Movimento se deu sob intensa repressão. O jornal enfrentava censura prévia, cortes frequentes e dificuldades financeiras. Em muitas edições, os espaços em branco denunciavam a violência do regime contra a liberdade de imprensa.

Ainda assim, Raimundo manteve uma linha editorial firme, apostando no jornalismo como ferramenta de transformação social. Sua trajetória foi marcada pela disciplina, pelo compromisso com os fatos e por uma postura intransigente em defesa da democracia.

Em uma fase posterior, Raimundo criou o projeto Retratos do Brasil, voltado à interpretação profunda da realidade nacional, reunindo reportagens extensas e análises estruturais do país. Para José Reinaldo Carvalho, tratava-se de uma obra ambiciosa, com “reportagens de fôlego, uma verdadeira enciclopédia sobre o Brasil”.

Raimundo Rodrigues Pereira deixa uma obra que ultrapassa sua produção individual. Sua trajetória se confunde com a história da resistência democrática no Brasil.

O jornal Movimento permanece como símbolo de um tempo em que fazer jornalismo era um ato de coragem — e como referência permanente para todos que acreditam na imprensa como instrumento de liberdade e transformação social.

LULA PRESTA HOMENAGEM

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva prestou uma homenagem ao jornalista Raimundo Rodrigues Pereira, que morreu neste sábado, aos 85 anos, no Rio de Janeiro, destacando sua trajetória como um dos maiores nomes da imprensa brasileira e símbolo da resistência democrática. Em mensagem, o presidente ressaltou a firmeza de Raimundo diante da repressão: “Mesmo tendo sido perseguido e preso pela ditadura militar, nunca deixou de lutar pela democracia e pela liberdade de imprensa. E, o que é mais importante: nunca se calou.”

Lula também destacou o papel decisivo de Raimundo na construção da chamada imprensa alternativa, que emergiu como resposta à censura e ao controle dos grandes veículos durante o regime militar. Após atuar nas principais revistas do país nos anos 1960, Raimundo esteve à frente de iniciativas fundamentais no jornalismo crítico. Foi editor-chefe do semanário Opinião no início dos anos 1970 e, em 1975, fundou o jornal Movimento, um projeto inovador e independente, sem vínculos com grandes grupos editoriais.

(Com informações do Brasil 247)