Em 2020, durante a pandemia de Covid, a documentarista carioca Carol Benjamin refugiou-se, com os dois filhos pequenos, em Nova Friburgo, na região serrana do estado do Rio. No contato com as mães dos colegas de suas crianças, no colégio, e em conversas com amigos que fez na cidade, ela tomou consciência de que o trauma com a tempestade que desabou sobre a cidade, em 2011, ainda não se desvanecera. Na época de sua chegada, a tragédia – que, segundo fontes locais, fizera 442 vítimas - já tinha quase uma década, mas a destruição de centenas de construções e da economia local ainda reverberava. Era quase impossível encontrar pessoas que não tinham sido afetadas por um dos maiores desastres ambientais ocorridos no Brasil. Tocada por aqueles dramas, Benjamin decidiu que precisava fazer um documentário sobre aquela história dantesca. A questão era como fazer isso. Usar imagens da tragédia? Pessoas mortas e feridas? Cidade destruída? Quanto mais material ela recolhia, mais dificuldades ela tinha de desenvolver um projeto que não se assemelhasse às extensas reportagens que saíram na época do desastre. Em 2024, enquanto se preparava para as filmagens, Benjamin foi apresentada ao líder comunitário e educador Tião Guerra, que vivera uma trágica história pessoal. Na madrugada de 11 para 12 de janeiro de 2011, quando a tempestade desabou sobre a cidade, Guerra perdeu a irmã, os sobrinhos e o cunhado, que estavam em férias em Nova Friburgo, instalados na casa vizinha à dele. Valendo-se de um tabuleiro forrado com areia, sobre o qual pousavam pequenas peças de madeira e gravetos, que faziam as vezes das casas e das pessoas envolvidas na história, Guerra começou a narrar os acontecimentos daquela madrugada fatídica. Era quase uma sessão de terapia junguiana. A certa altura, a diretora pegou um recipiente com café e o derramou sobre o tabuleiro, criando uma lama que foi encobrindo todos os pequenos pedaços de madeira. Com o desenrolar da conversa, Benjamin teve uma ideia ousada: contaria a tragédia através da fala de Guerra e da movimentação das peças no tabuleiro. O resultado é que, nos dezenove minutos de duração do curta metragem Sobre ruínas, filmado em 2024 – e lançado no ano passado, infelizmente em circuito restrito –, a diretora e o entrevistado desenvolvem uma conversa intimista, delicada, triste e, por incrível que pareça, plena de superação e esperança. O método de Benjamin faz com que o espectador tenha a exata dimensão da dor, da perda, e do horror que foi aquela madrugada para a cidade e seus moradores. O curta teve apoio da Secretaria Municipal de Cultura de Nova Friburgo, através da Lei Paulo Gustavo. Além da delicada direção de Benjamin, a arte de Tati Bond e a montagem de Marília Moraes contribuíram muito para a beleza do trabalho, condensando o longo diálogo entre Benjamin e Guerra. O espectador pode assistir a esta pequena joia nas redes, gratuitamente, através do link. |
A Trilogia mexicana, de Yuri Herrera, livro publicado em fevereiro pela Editora Amarcord, é um compilado de três romances do autor e cientista político mexicano de 56 anos. É a primeira vez que Herrera – que aborda alguns dos temas mais atuais que atravessam seu país, como a migração e a violência do narcotráfico – é traduzido no Brasil. No primeiro romance da compilação, Trabalhos do reino, o personagem principal é o músico Lobo, um jovem que tenta tirar o sustento através de apresentações do corrido, composição tradicional mexicana muito tocada pelos mariachis. “Nunca reparou nessa coisa absurda, o calendário, porque os dias eram todos parecidos: circular entre as mesas, oferecer canções, estender a mão e encher os bolsos de moedas”, descreve o narrador. A virada na vida de Lobo acontece quando ele aceita se tornar um dos músicos particulares de um poderoso narcotraficante da área, passando a ser chamado Artista (os outros personagens também têm o nome omitido – o Jornalista, a Menina, o Herdeiro, o Rei, etc). No segundo romance, Sinais que precederão o fim do mundo, acompanhamos a jornada de Makina, uma mulher que passa por longa viagem para encontrar seu irmão, que foi em busca de terras da família para além da fronteira. Para chegar lá, ela precisa se embrenhar em um submundo do tráfico. A última história é A transmigração dos corpos, ambientada no contexto da pandemia de H1N1 no México em 2009. Em meio à corrupção e a uma crise sanitária, um homem é convocado para resolver conflitos de relações entre vivos e mortos. Com uma escrita que vai do erudito ao popular, do real ao fantástico, habilmente traduzida nesta edição por Rachel Gutiérrez, essa tríade de Herrera é uma viagem pelo México em três atos. Uma viagem densa e violenta, mas ao mesmo tempo rica, saborosa, colorida – pelos goles de mezcal e pulque (bebidas alcoólicas tradicionais do México), pelos tacos e enchiladas apimentadas, na arte e na música de um país que, praticamente ao longo de toda sua história, viveu sob períodos de guerras e invasões. A mescla da linguagem erudita e o dialeto das ruas, dos subúrbios, faz com que temas estereotipados em nosso imaginário como o tráfico e a migração ganhem um ar de originalidade, apresentados como episódios vívidos. Herrera leva à reflexão sobre esse território, não tão diferente do nosso, onde a prosperidade é promessa constante. |
O cinema do chinês Wong Kar-wai é uma vertiginosa viagem sensorial, um fluxo de emoções febris e mergulhos psicológicos no íntimo de personagens solitários, cujos dentro e fora se embaralham sob o neon lisérgico das caóticas cidades chinesas. Mas o que acontece quando um artista que costuma mandar às favas a estrutura narrativa linear resolve criar uma série? Em fevereiro, a série Blossoms Shanghai estreou no Mubi (o lançamento na China ocorreu em dezembro de 2023). Se no cinema Kar-Wai se permite elipses, cenas que começam no meio e lacunas deliberadas na história que devem ser preenchidas pelo próprio espectador, na série Kar-wai recorre a uma linguagem mais tradicional, mas sem abrir mão de seu universo ficcional singular. A série se passa entre os anos 1980 e 1990, quando a China emite sua primeira ação na bolsa de valores e insere sua economia no mercado global – um momento histórico importante para o país. Fortunas são construídas e desfeitas com a mesma rapidez. Na série, Bao, um rapaz de origem pobre, procura o Senhor Ye, um velho e experiente negociante recém-saído da prisão, e pede que o ajude a ganhar dinheiro no mercado de ações. O mundo dos negócios em Xangai não é para amadores. E, com as dicas certas, Bao se torna um poderoso investidor. Logo no primeiro episódio, Bao sofre um atentado na saída da Bolsa de Valores. A partir daí, Kar-wai desenvolve em cada um dos 30 episódios uma narrativa noir com tudo o que o gênero tem de melhor: mistérios, ambiguidade moral, subtramas labirínticas, sensualidade, investigação, dúvidas, sombras. Quem está por trás do atentado ao jovem self-made man que desafiou a aristocracia investidora de Xangai e se tornou um homem poderoso? A afetuosa e leal Ling Zi, a ambiciosa Miss Wang, ou a enigmática e calculista Li Li? Terá sido o próprio Senhor Ye, ou os inúmeros desafetos do protagonista? De onde veio sua fortuna? Quais pactos e favores foram rompidos para que tenham atentado contra sua vida? Dentro da estrutura narrativa clássica de séries, Kar-wai se mostra tão habilidoso e virtuoso quanto no território mais familiar de suas narrativas no cinema, fragmentadas e não lineares. Mas ele não abre mão de discutir ideias profundas, frequentemente reiterando a ilusão por trás do mundo neon do capitalismo, suas sombras, seus cantos mais obscuros, e sobretudo sua impermanência – refletida na transitoriedade do dinheiro, do prazer, dos acordos, dos afetos. Essa é a obra mais clássica do cineasta (apesar de não ser a única num estilo mais convencional), e nem por isso perde em ousadia ou exuberância. Lá estão a estética inebriante do sonho, o neon saturado, a névoa da memória fragmentada, a introspecção psicológica. Tudo aquilo que quem admira o cineasta ama em sua obra. |
“Sua principal mania, havia me advertido Milan em algum momento, eram os cartões-postais. Ele gostava de enviar cartões-postais. Não de recebê-los. De fato, jamais quis me dar seu próprio endereço.” O primeiro cartão-postal que o personagem envia ao narrador do conto é sobre o cantor cigano Šaban Bajramović, nascido na cidade iugoslava de Niš, em 1936 – um desertor do exército do marechal Tito que é enviado à ilha nua, uma rocha na costa dálmata onde prisioneiros morriam desnutridos e esquecidos. Pouco depois, Milan envia outro cartão-postal, contando a história de um rei que era dono do abecedário cigano. Assim, de forma elíptica e sedutora, o escritor guatemalteco Eduardo Halfon tece um conto – publicado na edição de maio da piauí – que é uma espécie de homenagem à cultura cigana, e ao mesmo tempo à errância de seus personagens e ao próprio ritual esquecido e potente de enviar cartões postais. O conto inédito – intitulado Cartões-postais – faz parte do livro O boxeador polonês, a ser publicado em junho pela editora Autêntica Contemporânea, em tradução de Silvia Massimini Felix. |
Enviado por Revista Piauí Precisa de ajuda? Entre em contato conosco digital@revistapiaui.com.br |
|
|
|