 | Logotipo do app Claude, desenvolvido pela Anthropic | Matthias Balk/picture alliance via Getty Images |
| Anthropic pisa no freio e faz a jogada do ano no mundo da IA |
|  | Helton Simões Gomes |
| Se você achava que o mundo da inteligência artificial não tinha como surpreender mais, espere até ver como os acontecimentos da semana passada ditarão os rumos dos negócios de tecnologia daqui para frente. E tudo começou quando a Anthropic, uma das potências emergentes da IA, teve uma brecha flagrada por um pesquisador de cibersegurança, revelando um novo sistema da empresa. Mas o que, no mundo tech, é limão amargo virou uma tremenda caipirinha —afinal, tem dedo brasileiro nessa limonada. A companhia admitiu a existência do novo produto (o "Mythos"), mas freou seu lançamento, dado seu poder de descobrir falhas de segurança. Nas mãos errados, seria uma hecatombe da infraestrutura digital global. Em vez de lançá-lo, a Anthropic fez a jogada do ano na IA: franqueou o acesso antecipado e exclusivo do Mythos a um grupo seleto de gigantes norte-americanas. Estrategicamente, pinçou a dedo algumas rivais, deixou outras de fora, alertou Washington —mas ignorou Pequim— e prometeu compartilhar o que descobrir. De uma só vez, criou um marketing sem precedentes e se sentou na confortável posição de ditar como o planeta deve evitar o caos cibernético. As consequência, porém, vão além do estado de sobreaviso onde a Anthropic mergulhou o mundo. |
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 | Mike Krieger, diretor dos Anthropic Labs e cofundador do Instagram | Divulgação/Brazil at Silicon Valley/@monking.br |
| | Antes de ser Mythos, a tecnologia que pode mudar tudo era apelidada internamente de Capybara ("capivara"). Durante os testes, a empresa descobriu que: - O novo modelo de IA era muito bom em detectar falhas. Entre as milhares, estavam um bug presente havia 27 anos no OpenBSD, sistema operacional de código aberto usado por roteadores de internet, e um problema incrustado havia 16 anos em um software de vídeo avalizado por 5 milhões de testes;
- Além de encontrar vulnerabilidades, o Mythos se mostrou mestre em criar bugs indetectáveis;
Enquanto pensávamos em como trazer isso para o mercado, percebemos que simplesmente lançá-lo iria potencialmente liberar muitas pessoas não apenas para resolver seus problemas com esses modelos, mas também para explorá-los. Então demos um passo atrás Mike Krieger, diretor do Anthropic Labs - Um dos cofundadores do Instagram, Krieger hoje é líder do laboratório da Anthropic. Durante o Brazil at Silicon Valley, o brasileiro detalhou o cálculo por trás da criação do consórcio "Glasswing";
- O grupo reúne cerca de 50 companhias, com 12 são fundadoras, incluindo AWS, Apple, Google, JP Morgan, Microsoft e Nvidia;
- O acesso não será gratuito: a Anthropic vai custear os primeiros US$ 100 milhões gastos com processamento. Depois, vai cobrar entre US$ 25 e US$ 125 para cada milhão de interação;
- A Anthropic diz ter informado o alto escalão da cibersegurança do governo dos EUA, enquanto o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessen, mantém conversas com os bancos norte-americanos sobre o impacto do Mythos no sistema financeiro;
- Dado o acesso VIP ao Mythos, muita empresa ficará de fora, mas Anthropic é benevolente. Diz que vai compartilhar as lições aprendidas, convida os parceiros do Glasswing a fazerem o mesmo e já colocou na agenda de todo pesquisador de segurança o evento mais aguardado do segundo semestre: promete divulgar em 90 dias as vulnerabilidades corrigidas e as propostas de melhorias em alguns sistemas.
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 | Basicamente dissemos: 'Certo, não vamos lançar este modelo publicamente (...) Vamos efetivamente armar esses defensores cibernéticos com acesso ao modelo e muitos créditos de uso para poderem usá-lo amplamente para garantir a segurança dos seus softwares'. Sabendo que existem outros fornecedores e modelos por aí, e que essas capacidades se tornarão mais distribuídas nos próximos meses. Então, podemos basicamente dar às pessoas uma vantagem inicial contra isso | | Mike Krieger | diretor do Anthropic Labs |
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 | Sam Altman, CEO da OpenAI, e Dario Amodei, CEO da Anthropic | Divulgação |
| | A Anthropic excluiu de seu clube rivais de peso, como OpenAI e Meta, mas enviou um recado direto: Convidamos outros membros da indústria de IA a se unirem a nós para ajudar a definir os padrões do setor. A médio prazo, um órgão independente e de terceiros — capaz de reunir organizações dos setores público e privado — poderá ser a sede ideal para a continuidade dos trabalhos nesses projetos de cibersegurança de larga escala Ainda que concorrentes, Google, AWS e Microsoft estão na lista, pois é por meio das plataformas de computação em nuvem deles (Vertex AI, Amazon Bedrock e Microsoft Foundry) que o Mythos será acessado. Pisar no freio não é inédito. A OpenAI fez isso em 2019, quando anunciou, mas não liberou o GPT-2 na íntegra. Julgou que suas capacidades de texto poderiam ser usadas para desinformação. São duas as novidaes. Primeiro, o Mythos cumpre a profecia de uma IA capaz de mapear e explorar fragilidades sistêmicas, algo temido há anos por experts em cibersegurança. Segundo, o consórcio de empresas bilionárias valida o que poderia ser visto como bravata. O sucesso recente Anthropic reforça o temor. Após lançar o modelo Opus 4.5, a empresa viu sua receita anualizada da Anthropic dobrar em dois meses. O responsável foi o Claude Code. O agente de IA voltado a desenvolvedores balançou algumas placas tectônicas no mundo da tecnologia. Segundo relatos feito a Radar Big Tech, diversas startups, incluindo brasileiras, reformularam seus modelos de negócio para não ficar no caminho da Anthropic. É assim que resume o salto tecnológico Pedro Franceschini, o CEO da Brex, startup adquirida pelo Capital One em uma das maiores compras de fintechs da história: É dessa forma que descrevo para a minha equipe: o Opus 4.5 trouxe a AGI (Inteligência Artificial Geral) ou algo perto disso. E é como se a eletricidade tivesse sido inventada em dezembro e agora, em abril, ainda tivesse gente por aí andando com velas Pedro Franceschini, CEO do Brex |
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 | Dario Amodei, CEO da Anthropic | Kimberly White (TechCrunch)/Wikimedia Commons |
| Não é bem assim, mas tá quase lá |
| O Mythos não é só bom de cibersegurança, mas supera até o Opus 4.6, o sucessor do modelo do Claude Code, em todos os quesitos. Como poucos podem testar, a Anthropic começa a construir uma posição estratégica difícil de replicar: - 1) Indispensabilidade: se os relatos elogiosos de uma dezena de top executivos forem sinceros, a Anthropic já garantiu fonte certa de receita futura;
Já estamos testando o Mythos em nossas próprias operações de segurança, aplicando-o em bases de código críticas, onde ele já nos ajuda a fortalecer nosso código Amy Herzog, Vice-presidente e diretor de segurança da informação da AWS O Mythos apresentou melhorias substanciais em comparação aos modelos anteriores Igor Tsyganskiy, vice-presidente executivo de cibersegurança da Microsoft Research - 2) Demanda antecipada: não é difícil de imaginar que, neste momento, as empresas excluídas do Glasswing ou tentam descolar um convite ou contam as horas para as vendas do novo modelo;
- 3) Arbitragem de soluções: ao compartilhar aprendizados de uma ferramenta inacessível, a Anthropic assume o papel de chefe de segurança global que age como mágico, pois realiza truques magníficos sem explicar como o fez. A quem assiste só resta acatar -ou pagar para ver;
- 4) Alinhamento geopolítico: ao priorizar o governo dos EUA, a empresa reforça o discurso de segurança nacional e busca reaproximação com Donald Trump para arrefecer o azedume por ter enfrentado o Pentágono.
Se todos esses cenários se confirmarem, a Anthropic assume lugar difícil de abalar na corrida da IA. Em entrevista ao "New York Times", Logan Graham, chefe de testes da empresa, deu o spoiler: com a chegada de modelos como o Mythos, todo código existente precisará ser reescrito, senão ficará aquém dos desafios impostos pela IA. Resta saber quem fornecerá a luz elétrica para iluminar esse futuro de escuridão. |
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 | Divulgação/Roblox |
| Roblox: nova conta limita chat e game conforme idade de jogador |
| O Roblox vai reformular a partir de maio o funcionamento das contas na plataforma de jogos, que virou febre entre crianças e adolescentes. Os perfis passarão a ter restrições de conteúdo e comunicação nativas, baseadas na idade dos usuários. A mudança é um desdobramento do processo de verificação etária, iniciado em janeiro e alvo de protesto virtual no Brasil. Apelidada de "Revolta do Roblox", a manifestação teve como alvo o influenciador Felca, autor do vídeo viral que impulsionou a aprovação do ECA Digital. Segundo a empresa, 50% de seus 144 milhões de usuários diários já confirmaram suas idades por reconhecimento facial ou envio de documentos. A empresa vai combinar o redesenho das contas com o lançamento do plano de assinatura Roblox Plus, voltado a dar vantagens a usuários comuns, como descontos em itens virtuais, e obrigatório para desenvolvedores interessados em criar games para faixas iniciais de idade. Acreditamos que isso aumenta a segurança e a estabilidade na plataforma ao manter usuários de idades semelhantes juntos quando estão se comunicando Matt Kaufman, chefe de Segurança do Roblox |
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