O planeta está perigosamente próximo de ultrapassar o limite de 1,5°C de aumento de temperatura em relação ao período pré-industrial. Isso causará impactos cada vez mais visíveis sobre ecossistemas, economias e sociedades. O Brasil, por sua localização tropical e desigualdade social, será um dos países mais afetados. Ainda temos tempo para agir. Em dezembro de 2015, representantes de 195 países reuniram-se em Paris, na França, e firmaram um compromisso: limitar o aumento da temperatura média global a bem abaixo de 2°C e realizar esforços para restringi-lo a 1,5°C acima dos níveis pré-industriais. Esse compromisso, conhecido como o Acordo de Paris, marcou um momento de esperança internacional diante da crescente evidência científica sobre os riscos das mudanças climáticas. Naquele momento, a ciência já indicava que cada fração de grau adicional de aquecimento implicaria impactos significativos sobre sistemas naturais e humanos. Passados mais de dez anos, o mundo enfrenta uma realidade inconveniente. As emissões globais de GEE (Gases de Efeito Estufa) em 2015 foram de aproximadamente 47 GtCO2eq — gigatoneladas de dióxido de carbono (CO2) equivalente. Em 2019, segundo o Sexto Relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, as emissões globais foram de 59 GtCO2eq. Isso significa que as emissões de GEE continuaram a crescer após o Acordo de Paris. Os anos de 2023, 2024 e 2025 foram os mais quentes dos 176 anos de medições observacionais da temperatura global. O ano de 2024 foi o primeiro em que a temperatura média global superou 1,5°C em relação ao período pré-industrial. A média anual foi de 1,55°C acima do período de referência de 1850-1900. Para os próximos anos, a comunidade científica projeta a continuidade do aquecimento, podendo chegar a 1,8°C até 2027. Implicações do aumento de temperatura superior a 1,5°CO aumento da temperatura global tem provocado mudanças no sistema climático que vão além da observação científica. Porém, ultrapassar o limite de 1,5°C representará um aumento significativo das tragédias climáticas. Entre os principais impactos esperados estão: ondas de calor mais intensas em praticamente todas as regiões do planeta; secas mais frequentes e prolongadas, como a ocorrida na Amazônia em 2023 e 2024; mais eventos de chuva extrema, como os que ocorreram em São Sebastião (SP) em fevereiro de 2023, no Rio Grande do Sul em maio de 2024 e na Zona da Mata Mineira em fevereiro de 2026; elevação do nível do mar, resultado do derretimento de geleiras e da expansão térmica da água, processo que aumentará o impacto cada vez mais forte das ressacas costeiras. Os sistemas naturais e agrícolas serão mais afetados. A perda de biodiversidade será agravada pela alteração na distribuição geográfica das espécies, decorrente da redução de habitats adequados. Os recifes de corais são vulneráveis ao aumento da temperatura dos oceanos, e sua degradação será percebida por meio do branqueamento. Trata-se de um ecossistema muito próximo do ponto de não retorno. Os riscos de incêndios florestais e geadas aumentarão, afetando a produtividade agrícola e florestal. Finalmente, os riscos de epidemias e pandemias também aumentarão. A combinação entre o aumento das tragédias climáticas e a degradação dos sistemas naturais e agrícolas é devastadora: insegurança alimentar, deterioração da saúde pública e problemas na infraestrutura urbana, tornando as cidades mais vulneráveis a enchentes, ondas de calor e escassez de água; aumento da pobreza e da desigualdade social, já que as populações economicamente desfavorecidas são desproporcionalmente afetadas pelos impactos climáticos. A ciência indica que ainda há tempo para agirAinda é possível evitar que o aquecimento global ultrapasse em muito 1,5°C, e a ciência indica que este valor será atingido permanentemente até 2030. Para isso, é urgente reduzir as emissões de GEE em 5% ao ano a partir de 2026 e zerar as emissões líquidas globais até 2040 e no máximo até 2045. Com isso, o aquecimento global atingirá entre 1,7°C e 1,8°C e torna-se mandatória a remoção de CO2 da atmosfera. Para isso, uma solução baseada na natureza é essencial e está relacionada ao cumprimento de todos os acordos globais de restauração florestal. Os principais acordos incluem a Década da Restauração da ONU, o Desafio de Bonn, as metas nacionais do Acordo de Paris, a Iniciativa de 1 Trilhão de Árvores do Fórum Econômico Mundial e o Arco da Restauração do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social). A medida, além de remover CO2, também protegerá a biodiversidade e reduzirá o risco de pontos de não retorno de biomas, especialmente a Amazônia. Não será fácil nem garantido. Porém, somente com a combinação de emissões líquidas zero de GEE e restauração florestal em grande escala o aquecimento global ficará contido próximo de 1,5 °C neste século. Sem essas ações e mantendo o padrão do atual modelo de desenvolvimento econômico, a temperatura global pode atingir de 3°C a 4°C de aquecimento até 2100. A década atual é a mais importante para o futuro climático do planeta. Se as emissões de GEE continuarem a crescer, a ultrapassagem do limite de 1,5°C se tornará inevitável. Ainda há tempo para agir. |