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04 abril, 2026

Documentário sobre Seymour Hersh homenageia jornalismo investigativo e antissistema | Blog do Gerson Nogueira

 

Por Caio Coletti, no Omelete

Há de se admirar um filme que sabe onde terminar. Seymour Hersh: Em Busca da Verdade, documentário sobre o jornalista estadunidense do título, acaba em uma fala do biografado que não só resume quem ele é, e por que sua vida foi como acabamos de testemunhar, mas também por que ver um filme sobre ele é importante exatamente hoje: Hersh é uma espécie em extinção, e isso é perigoso.

O final bem colocado, é claro, é só uma última tacada talentosa da dupla de diretores Laura Poitras (vencedora do Oscar de melhor documentário por Citizenfour) e Mark Obenhaus. Até porque os dois se mostram, nas 2h anteriores de Em Busca da Verdade, bastante desenvoltos na arte de costurar acontecimentos e manejar a linha do tempo de uma vida.

E não é como se a missão fosse fácil: embora Hersh tenha desempenhado um papel em momentos emblemáticos da história dos EUA, ele nunca foi o protagonista deles, e sua mídia (quase) sempre foi a palavra escrita – em outras palavras, material de arquivo é escasso. Em Busca da Verdade por vezes sofre com isso, lançando mão de imagens genéricas que diluem o seu impacto, mas na maior parte do tempo o filme dança ao redor dessa escassez através de entrevistas com o próprio Hersh, sem deixar de fora os espinhos de sua personalidade desconfiada e sua retórica defensiva.

Assisti-lo é interessante porque ele nunca parece menos do que real. Como qualquer um de nós faria, ele se encolhe diante de críticas, e se mostra ferozmente reservado sobre tudo o que possa transformá-lo de contador de histórias em personagem. O entrevistado relutante para acabar com todos os entrevistados relutantes, enfim. E Poitras, especialmente (a voz dela é sempre ouvida durante os momentos de conflito), sabe cutucar sem se intrometer.

Acima de tudo, no entanto, recapitular a carreira de Hersh deixa transparecer que seu trabalho jornalístico sempre foi baseado na fundação verdadeira de que há algo escondido embaixo do tapete dos EUA… e, provavelmente, algo ainda pior escondido debaixo da sujeira que você encontrar por lá.

O filme elenca contextos em que a inflexível resistência de Hersh a adotar a “narrativa oficial” sobre a qual todo o seu país descansa foi saudada como heroísmo (quando ele descobriu horrores perpetrados pelo Exército no Vietnã e no Iraque, por exemplo), mas também contextos em que virou vilania (quando ele contestou o mito da Casa Branca de Kennedy, ou desafiou a moralidade do governo ucraniano durante a guerra com a Rússia). Poucas vezes um documentário sobre uma figura “controversa” foi tão claro em seu resgate histórico de quando, e por quem, a controvérsia em questão foi criada.

O grande trunfo de Em Busca da Verdade é compilar as contra-narrativas ouvidas e relatadas por Hersh durante sua carreira, e entender o papel que elas desempenharam no correr da história dos EUA – um país patologicamente indisposto a confrontar a sua própria cultura de violência, a sua tendência a desumanizar o outro, a corrupção absoluta do seu poder absoluto (ou, ao menos, percebidamente absoluto) na política global. Num mundo em que é muito mais fácil aceitar as histórias que nos contam, é preciso gente que não se contente e conte outras.

Muito frequentemente, de fato, é um caso de vida ou morte.

MY LAI E PULITZER

Quando Seymour Hersh revelou o massacre cometido, em 1968, por soldados americanos em My Lai contra civis vietnamitas, inclusive bebês, o jornalista foi acusado de atentar contra o interesse nacional. Penou para publicar a reportagem. Os horrores lhe renderam muitas noites sem dormir e um Pulitzer.

Em 2004, denunciou torturas e abusos sofridos por prisioneiros em Abu Ghraib após a invasão do Iraque pelos Estados Unidos. As Forças Armadas chiaram novamente. De seus pares, recebeu o epíteto de “aquele que faz o poder tremer”. Teimosamente na ativa aos 88 anos, ele é a razão de ser de “Seymour Hersh: em busca da verdade”, documentário de Laura Poitras e Mark Obenhaus, pré-indicado ao Oscar e disponível na Netflix.

Lá se vão duas décadas desde que Poitras, após devorar os textos de Hersh na New Yorker sobre a Guerra ao Terror do governo George W. Bush, quis cooptá-lo para o filme. Perfilá-lo, defendia, seria ideal para escancarar o ciclo de abuso de poder em Washington desde os anos 1960. À época, o jornalista justificou sua negativa com a necessidade de proteger suas fontes.

Há três anos, a morte de informantes, a insistência de Poitras e os filmes por ela dirigidos no período garantiram sua bênção ao projeto. “Em busca da verdade” foi finalizado com Donald Trump de volta à Casa Branca, quando a reflexão sobre o precário estado da democracia americana, a propagação de fake news e o cerco de Washington a uma imprensa em crise está na pauta do dia.

“Hoje são mais nítidas as consequências da impunidade dos crimes cometidos pelos governantes. Desgraçadamente, a escala do que eu queria mostrar aumentou. Por outro lado, o posicionamento do filme se fortaleceu”, afirmou a diretora.

(Com informações de O Globo e Folha de S. Paulo)