segunda-feira, 25 de março de 2013

TERRA DA GAROA GAFIEIRA - AV. SÃO JOÃO , 555 - SÃO PAULO SERÁ INAUGURADA COM THOBIAS DA VAI VAI - ELIZETE ROSA - ATAULPHO ALVS JR via Ataulpho Alves Alves Junior

Thobias da Vai Vai - 2

A voz do Samba de São Paulo

Por Waldir Martins - 10/01/2012


Músico, quinze anos como intérprete oficial de uma das mais tradicionais escolas da cidade, dirigente do samba de São Paulo, promotor cultural e, mais recentemente, assessor da Secretaria da Copa para o desenvolvimento de políticas culturais na cidade, Edimar Tobias da Silva, o Thobias da Vai Vai, é personagem que permanentemente busca trabalhar pela preservação e divulgação do que melhor existe na cultura popular.

Com um DVD recém lançado – Templo da Gafieira – que gravou ao vivo em parceria com a Banda Mantiqueira, e trabalhando para inaugurar uma casa de gafieira em São Paulo - a Terra da Garoa - Thobias conversou com a TAXICULTURA para contar um pouco de sua história, seus muitos anos de trabalhopela escola do seu coração, a Vai Vai,
e os novos projetos em desenvolvimento.

TAXICULTURA:
Onde você nasceu e como entrou para o mundo do samba?

Thobias:
Sou paulistano, nascido e criado na Zona Norte de São Paulo, Jardim Peri, Cachoeirinha, mas, artisticamente, estou ligado ao bairro do Bixiga desde 1980. Sou um filho adotivo do bairro do Bixiga. Foi ali que iniciei a minha carreira, ingressando na ala de compositores da [Escola de Samba] Vai Vai em 1981, e fiquei por quinze anos como intérprete oficial da escola. Dos quatorze títulos que a escola conquistou no Carnaval de São Paulo, só não participei de dois. Em alguns como cantor, e um como presidente da escola. Hoje já tenho nove CDs gravados; atuei durante um bom tempo com o [Oswaldo] Sargentelli, quando trabalhamos até no exterior. Eu vivo de música.

TAXICULTURA:
É verdade que você entrou na Vai Vai pela Gaviões da Fiel, que naquela época era apenas um bloco carnavalesco?

Thobias:
Não! Não foi assim. Naquele tempo a Gaviões da Fiel participava do desfile de Blocos, que acontecia aos sábados, e eu já estava na Vai Vai, e todo mundo da Vai Vai desfilava no bloco da Gaviões da Fiel, que era um bloco onde os  corinthianos se confraternizavam. E eu fui convidado para ser o intérprete do bloco. Como eu não tinha essa função na Vai Vai, de puxar o samba enredo, fiquei como puxador de samba do bloco, mas eu já era da Vai Vai. Como tantos outros,
porque tinha batuqueiro que desfilava na Vai Vai e desfilava também na Gaviões.

TAXICULTURA:
E na Vai Vai, como você começou?

Thobias:
Eu sempre tive simpatia pela Vai Vai, sempre gostei da Vai Vai e sonhava um dia em fazer parte desse time, desse contingente de sambistas. E acabei sendo levado por alguns amigos, como o Geraldo Filme, Osvaldinho da Cuíca e o Zé Luiz Roselli que, na época, era vice-presidente da Sabesp, onde eu trabalhava. Foi ele quem me apresentou ao pessoal, dizendo que eu cantava. Depois disso comecei a frequentar, fui me enturmando e, de repente, virei o intérprete oficial da escola e, até bem pouco tempo, o presidente.

TAXICULTURA:
E quando você se tornou o Thobias da Vai Vai, que hoje é um patrimônio, não só da Vai Vai, mas de toda a cidade de São Paulo e do mundo do samba?

Thobias:
Era só Thobias, mas, eu lancei um compacto duplo que estava tocando nas rádios e, como na [Escola de Samba] Camisa Verde e Branco, tinha a família Tobias, que era parte da direção da Escola, então o Moisés da Rocha, locutor da Rádio USP, para diferenciar, depois que tocava a nossa música dizia: ‘cantou aí o Thobias da Vai Vai’; desde então ficou marcado.

TAXICULTURA:
Qual o significado da Vai Vai para a comunidade do Bixiga?

Thobias:
É uma escola com oitenta e dois anos deidade, um verdadeiro patrimônio de São Paulo e eu espero ver chegar aos cem anos. É uma escola que nasceu nos anos trinta, como um cordão carnavalesco, passou a ser escola de samba na década de setenta, desde então se tornou a maior vencedora do carnaval de São Paulo com quatorze títulos. Outra característica da Vai Vai é ser uma escola da comunidade, onde você pessoas octogenárias e crianças participando: filhos, netos e bisnetos de componentes da Vai Vai, é uma raiz muito forte. A Vai Vai é uma escola que sempre se preocupou em promover a inclusão social através da cultura e outros programas.

TAXICULTURA:
Quais projetos acontecem hoje na escola?

Thobias:
Atendimento psicológico, campanha de prevenção do câncer, prevenção de catarata, Brasil Alfabetizado e diversos outros projetos na área de educação e também na área da saúde.

TAXICULTURA:
E em relação ao carnaval, para onde a Vai Vai se encaminha?

Thobias:
A Vai Vai hoje é uma escola que também se preocupa com essa questão dos desfiles técnicos, em que você não pode falhar, não pode errar e isso fez com que o carnaval e o sambista perdessem um pouco de sua espontaneidade; o sam-
bista perdeu um pouco do romantismo. Eu sou do tempo da Avenida Tiradentes, quando era tudo menor, a coisa era mais artesanal, não era tão comercial. Hoje todo mundo é profissional, puxador de samba ganha dinheiro, todo mundo é contratado. Por exemplo, essa história de madrinha da bateria, musa da bateria , é uma coisa para atender a mídia.



TAXICULTURA:
Isso compromete a vida da escola na comunidade? Isso mata o samba?

Thobias:
Matar não mata, porque o samba é imortal (risos), mas é lógico que isso provoca muitas saias justas, alguns melindres, porque a Escola de Samba, para a comunidade, muitas vezes, é o palco e o momento em que a pessoa se sente artista, ela pode se sentir gente, ela pode falar: ‘eu existo’. A Escola de Samba é o seu palco e é tão pouco tempo, dura tão pouco que você não pode frustrar, você não pode cercear esse direito.

TAXICULTURA:
Dentro da sua trajetória o que mudou? Do Thobias, intérprete oficial da escola, passando pelo Thobias presidente e o papel que você desempenha hoje?

Thobias:
No início, quando você é jovem, tem apenas aquela vaidade, aquela vontade de aparecer, de ser uma estrela. Na medida em que o tempo vai passando, você vê que, por tudo aquilo, tudo que conquistou, você tem que oferecer uma contrapartida, dar uma retribuição para aquele povo que te consagrou. Isso vai criando um senso de responsabilidade
muito grande e é isso que eu sinto hoje. Essa preocupação com a comunidade, com o bem-estar, com as crianças, com
o futuro daquelas crianças e também com a preservação da Escola de Samba, para que não se altere tanto o tempero da comida, senão vai perder o gosto.

T
AXICULTURA:
Este ano a Vai Vai traz um enredo focado na mulher brasileira...

Thobias:
Mulheres que brilham... é um enredo que destaca o papel da mulher, não só dentro de casa, que isso faz muito tempo que ela provou que é, mas a mulher como arrimo de família, a mulher como presidente, como dirigente, com as mesmas responsabilidades que qualquer homem teria, mostrando que o fato dela ser mulher não inviabiliza nada. Nâo é vantagem nem desvantagem, somos todos iguais.

TAXICULTURA:
Quais novos projetos que você tem em andamento?

Thobias:
Gravei o meu primeiro DVD, cujo nome é Templo da Gafieira e isso é resultado de um trabalho que há muito tempo venho desenvolvendo. Eu insisto e bato na tecla que o brasileiro, e o paulistano particularmente, que vive em uma cidade com 10 milhões de habitantes, que é uma cidade por onde diariamente circulam milhares de turistas, tem falta de entretenimento de qualidade, de vida inteligente. Então me propus a resgatar o tema gafieira. Gravei com a banda Mantiqueira, que dispensa apresentações, com arranjos muito bem elaborados, ao vivo, e está à venda na Livraria Cultura; lá tem, com certeza. Junto com esse projeto começo a trabalhar a ideia de promover também um resgate da dança de salão, da dança de gafieira, mas aquela coisa mais acústica, mais tradicional. Algo similar a um show de tango na Argentina. Você viaja para Buenos Aires e não fica sem ir ver um show de tango, sem ver um casal dançando tango, e em São Paulo e no Rio de Janeiro você não encontra nada similar em relação ao samba. Você pode encontrar forró, sertanejo universitário, pagodinho, mas coisas da moda, meio no padrão fast food. Claro que é para atender um público jovem, mas isso passa e não marca, e o que tem raiz permanece, porque mentira tem perna curta (risos). Para consolidar esse projeto estamos com planos de abrir uma casa de MPB, samba e gafieira, que irá se chamar Terra da Garoa. A proposta é que a casa seja um orgulho para o paulistano e resgate a boemia paulistana; nossa expectativa é fazer a inauguração em abril de 2012. O difícil é fazer o simples e eu quero o mais simples possível.

TAXICULTURA:
Com vistas à Copa do Mundo de 2014, a prefeitura de São Paulo criou a Secretaria da Copa e você foi convidado a integrar o grupo de trabalho. Como está se desenvolvendo esse trabalho?

Thobias:
A secretaria foi criada para atuar exatamentenessa questão mais cultural da cidade,  de preparar a cidade para a realização desse evento, propondo um novo tipo de relacionamento com os equipamentos culturais e de entretenimento. Se for olhar pelo lado do estresse, a cidade e os paulistanos estão doentes e é preciso e urgente cuidar disso, e o melhor remédio é investir na alegria... e samba é alegria! Vamos fazer essa cidade sorrir. Para isso existem vários projetos em andamento que serão colocados para o público já em 2012.